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Críticas Games

The Lion’s Song: transporte-se para Vienna de 1900

É comum que peças narrativas situadas em épocas passadas usem de seus momentos históricos como foco ou propulsor da história, afinal qual o motivo de situar um conto no passado se não para tirar vantagem do contexto, certo? Pois a Áustria do início do vigésimo século, presente em The Lion’s Song, apenas serve de um pano de fundo, no quais contextos socioculturais servem apenas para engrandecer as diferentes histórias cujo peso narrativo é carregado majoritariamente pelas emoções de seus empáticos personagens.

A Vienna de 1900, proporcionando marcos na música e matemática, exibindo o auge dos salões artísticos que começaram na França e servindo como berço da psicanálise, tem todas essas suas facetas exploradas em três histórias com diferentes protagonistas e ligeiras conexões entre si, cabendo ao quarto capítulo, mais como um epílogo, entrelaçá-los de uma maneira bem interessante.

Não deixe o lindo visual pixelado em sépia te enganar: por mais que tenha cara (e ligeiros elementos) de um adventure point & click, Lion’s Song é primariamente uma Visual Novel. Meu maior aproveitamento do jogo não foram através de enigmas (estes, quase inexistentes) mas sim através das interações que escolhi ou não realizar ao comando de cada um dos protagonistas e o impacto que isso teve em suas respectivas histórias.

Cada um dos capítulos lida com algum tema criativo específico: seja em Silence e Wilma, com sua dificuldade de compor uma música, Anthology e Franz, com seu dilema sobre a sua habilidade de pintura, ou Derivations e Emma, lidando com a falta de reconhecimento das suas teorias matemáticas devido à uma sociedade machista. Apesar das histórias com premissas semelhantes, as camadas de temas complexos como fundamentos explorados por famosos residentes austríacos, Freud e Klimt, resultam em narrativas surpreendentemente profundas e que ressoam com qualquer pessoa.

Silence, o primeiro e mais curto dos capítulos (que duram em média de uma a duas horas cada) exemplifica bem essa ideia. Os tons sépia não só ajudam a dar a ideia de algo antigo como também um misto de solidão e distância amparados por um certo calor humano. A ausência quase completa de sons torna as pequenas notas e ritmos que a compositora descobre ao seu redor ainda mais impactantes, culminando na sua excelente peça sinfônica. E o recém inventado telefone promove uma excelente interação que explora os conceitos de Id e interpretação dos sonhos (e consequentemente o inconsciente) popularizados por Freud. Isso tudo numa história que se passa quase que em sua totalidade em uma cabana isolada na floresta – o que dizer então das outras que se passam no coração de Vienna?

Se há algo que Silence não exemplifica tão bem é a consequência de suas escolhas. Claro, eu conseguia ver como o diálogo seguiria em direções diferentes mas nunca senti um impacto tão grande quanto nas demais histórias, mesmo com a desenvolvedora Mipumi comparando minhas escolhas com as dos demais jogadores e disponibilizando um fácil acesso a estes pivotais momentos para explorar as outras opções que deixei passar. Enquanto no controle de Franz minhas escolhas resultavam em diversos possíveis quadros, nunca senti que a grande opus de Wilma compôs sofria perceptíveis alterações.

Nem tudo é belo em Vienna. Apesar da excelente direção artística de Pixel art moderna, o mundo parece um tanto estático devido à ausência de animações ou variações das mesmas. Isso é exacerbado pela ausência de música e um controle lento dos personagens. A ausência de suporte à toque ou pointer (no modo portátil e em dock, respectivamente) é quase imperdoável para um point & click que possuía tais funcionalidades nas versões iOS e Steam.

Por 10 dólares, entretanto, é fácil relevar estes pequenos defeitos em prol de emocionantes e histórias contadas de forma digesta. Com jogos narrativos que diversas vezes passam de dúzias de horas, é gratificante ver um desenvolvedor indie entregar tanto conteúdo de forma tão compacta. Se você aprecia uma boa narrativa, é amante das artes ou está enfrentando problemas em sua profissão, qualquer que ela seja, não posso deixar de recomendar Lion’s Song.

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