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Thomas Lá, Dá Cá

Quando me entreguei ao Vício Inerente

Pode me chamar de careta, mas eu nunca usei drogas na vida.

Quando encostei num cigarro pela primeira vez, tossi a ponto de perceber que essa não era a melhor ideia do mundo para um asmático em potencial. Até o álcool nunca foi um amigo frequente.

Ainda assim, desconfio que ficar alto e viajar com substâncias alucinógenas não deve ser muito diferente de assistir as duas horas e meia de Vício Inerente. E isso, se não ficou claro, é um elogio.

Afinal, que outro filme, hoje em dia, ainda tem a coragem de desafiar o espectador e fazer algo completamente ousado? Com o perdão do trocadilho, a Hollywood moderna parece viciada. Viciada e incapaz de abrir mão da fórmula padrão do cinema pipoca que, por mais divertida que seja, acaba jogando a arte e ousadia de outrora para escanteio.

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Mas Paul Thomas Anderson está aí para dar aquela sacudida esperta nas estruturas e mostrar que ainda é possível fazer um cinema extremamente desafiador e interessante nos dias atuais. Adaptando o romance de Thomas Pynchon, autor notoriamente alucinado em suas narrativas – talvez os livros menos convidativos para uma adaptação à telona -, o diretor de Magnólia e Sangue Negro mostra que continua em plena forma.

Sobram cenas marcantes, tomadas fortes e imagens capazes de deixar sua marca na memória. Nas mãos do diretor, a Los Angeles setentista sofre com uma psicodelia exacerbada que acaba infectando todos os seus residentes.

 

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É como se cada personagem que passa pela tela estivesse em um estado permanente de lisergia. Quase nada do que é dito ou mostrado em tela pode ser considerado verdadeiro. Narradores pouco confiáveis apresentam situação absurdas e ambíguas, totalmente abertas à interpretação.

Ou não.

Está tudo bem se você quiser desligar a cabeça e só curtir a vibe malucona do filme sem pensar demais, até porque as pontas não vão ser amarradas, muitos arcos e personagens, por sua própria natureza, não farão sentido… e tudo bem com isso!

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Porque seja lá qual for o modo que você vai encarar o filme, nada apaga a diversão de acompanhar a saga de Doc Sportello (Joaquin Phoenix, em mais uma excelente interpretação) enquanto o investigador tenta conectar o retorno de sua ex-namorada, um cartel super poderoso e uma conspiração que envolve desde a polícia até dentistas (!). É, boa sorte!

O elenco de apoio dá um show em tela, contando com participações ilustríssimas de atores como Reese Witherspoon, Owen Wilson, Josh Brolin e Benicio del Toro. Suas atuações e cenas são tão bem filmadas que acabam ajudando o ritmo lento e cadenciado do filme a passar de forma bem instigante.

Da loucura e falta de lógica do que vemos em tela, nasce uma obra extremamente polida e coesa, capaz de passar para o espectador a mesma angústia e senso de paranoia que norteia os personagens da trama. Uma onda que faz valer cada minuto do longa.

A boa, então, é abrir a cabeça, expandir seus horizontes e curtir um dos filmes mais loucos e divertidos dos últimos anos.

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