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Cinema e TV Thomas Lá, Dá Cá

FALSOS DEUSES

Diário do Thomas, 29 de março de 2016.

A comédia morreu no Brasil. E ninguém se importa.

A internet tem medo de mim. Eu vi sua verdadeira face. Os sites e redes sociais estão cheios de gente chamando o Adnet de gênio. mas quando os servidores transbordarem os vermes vão se afogar. Quando as asneiras acumuladas estiverem sufocando os fãs de Tá no Ar, os modinhas olharão para cima e berrarão “salve-nos!”… e eu vou sussurrar: “o que tem na caixa?”

Ah, a Caixa. A maldita caixa. A caixa que saiu do programa do João Kléber para virar uma das piores piadas da história da televisão nacional.

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“Se você fizer uma piada sobre a caixa, as pessoas morrem… de desgosto.”

Tudo começou quando Marcelo Adnet fez uma imitação (peculiarmente ruim, dado que ele ao menos tem o mérito de ser, historicamente, um ótimo imitador) de João Kléber na estreia do humorístico Tá no Ar, a grande sensação da temporada 2016 da Rede Globo.

O esquete se resumia a, no decorrer do programa, mostrar flashes de um show similar ao do João Kléber, onde Adnet imitaria os tiques do lendário apresentador, enrolando a audiência sobre um segredo bombástico escondido dentro de uma caixa por horas a fio.

Os vermes aplaudem seu falso Deus, clamando pela genialidade de Tá no Ar

No fim do programa, numa manjada referência aos desfechos (ou falta de desfechos) que João tradicionalmente constrói, era revelado que dentro da Caixa havia apenas outra caixa. Previsível para os seguidores de João Kléber, mas não necessariamente errado só por isso.

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A piada está em quem não consegue entender uma piada

Uma piada inofensiva o bastante. Todo mundo ri. Tocam bateria e as cortinas descem.

Mas é aí que algo acontece. Semana após semana, a piada insiste em retornar. O público parece adorar tudo. A mesma piada consome valiosos minutos de tela, repetindo a punchline de novo e de novo e de novo enquanto os vermes aplaudem seu falso Deus, clamando pela genialidade de Tá no Ar.

“Meu nome é Adnet, rei dos reis! Contemplai minhas piadas e desesperai-vos!”

O objetivo da equipe de roteiristas (aqui personificada em Adnet, que costuma receber todos os louros), presume-se, era criar uma running gag. Ou seja, repetir uma piada tantas vezes que, em dado momento, ela se tornaria engraçada.

Tal artifício já foi empregado diversas vezes por algumas das maiores mentes do humor mundial e, quando bem feito, costuma gerar ótimos resultados. Diabos, até os Muppets sabem fazer uma running gag corretamente!

Assim, ao repetir a piada da Caixa por meses a fio, Adnet inegavelmente se compromete a bancar uma running gag. Tudo certo até aí, nada demais. Qual o problema, então? Que bom que perguntou! Vamos lá:

1) A running gag de Adnet já tinha encontrado seu começo, meio e fim no programa de estreia da temporada 2016 de Tá no Ar.

Ao provocar a audiência imitando o comportamento de João Kleber em três ou quatro blocos do programa, Adnet conseguiu amarrar bem seu texto e provar seu ponto, repetindo uma mesma piada com execuções levemente diferentes, tudo culminando em um desfecho coerente.

2) Ao repetir a mesma tática semana após semana, Adnet destruiu o trabalho feito no episódio acima, quebrando sua simetria e diminuindo qualquer efeito que ele pudesse ter causado. Se o seu objetivo era criar uma running gag por vários episódios, o caminho adequado seria apenas introduzir rapidamente a sátira no programa um, citando-a uma única vez e repetindo o mistério da caixa nos programas seguintes.

Neste sentido, uma resolução interessante seria, no final da temporada, finalmente revelar que dentro da caixa havia outra caixa, exatamente como aconteceu no fim da piada original. Mas como essa punchline já foi usada, Adnet precisará criar uma punchline sobre sua própria punchline, uma tarefa hercúlea que parece muito além de sua capacidade como humorista (mas que, de modo algum, é impossível).

3, e principal) a piada já não era um primor em sua execução original, era?

Quer dizer, o quão engraçado pode ser satirizar um programa que já era originalmente um humorístico? Guardadas todas as proporções, Adnet fazer piada sobre João Kléber é como se o Porta dos Fundos decidisse satirizar Monty Python. Qual seria o sentido disso? Será que alguém consegue recriar bem a piada da caminhada tola?

Adnet fazer piada sobre João Kléber é como se o Porta dos Fundos decidisse satirizar Monty Python

Veja bem, a piada de Adnet é baseada em um apresentador cujo programa consiste em, todo dia útil, entregar revelações do seguinte naipe:

“Esse segredo vai parar o país! Está dentro dessa caixa que eu vou abrir agora e… PARA PARA PARA PARA… posso revelar? o segredo… ih… o segredo você não vai acreditar! O segredo… Depois dos comerciais! Tudo pronto agora? Ok… o segredo… PARA PARA PARA PARA! Voltamos e vamos revelar! Posso falar? Pois o segredo… é que sua irmã se prostituía para comprar xisburguer!”

Vale notar que eu não inventei o “segredo” acima, ela realmente aconteceu de forma bastante similar ao que escrevi:

Responda sinceramente: o vídeo acima não é mais engraçado que o deboche de Adnet?

Ou seja, ao satirizar um humorista que se diverte criando punchlines deliciosamente absurdas como a supracitada (que fica ainda melhor pela atmosfera séria que João tenta dar às revelações. Note a “atriz” se segurando para não rir ao soltar a bomba), Adnet está, no melhor cenário, sendo redundante. No pior cenário, Adnet se revela um típico bully de escolinha.

Ao apontar seu dedo para João Kléber, Adnet, como bom bully acéfalo, deturpa a realidade para fazer rir sua corja de hienas puxa-sacos. Enquanto os vermes gargalham e chamam seu líder de gênio, o bully cospe impropérios, sufocando a graça do humorista original. Na sala de aula, a relação dos dois seria mais ou menos assim:

João Kléber: — Vou revelar o segredo! A bomba de hoje… PARA PARA PARA… o segredo de hoje é que.. vamos abrir a caixa… ih… no papel diz que o Pedrinho foi abduzido! :)

Marcelo Bully Adnet: — hahaha que retardado! Olha pra mim gente, vou fazer uma piada também! Pronto, peguei uma caixa… o que será que tem dentro hein? Dããã!

João: — Pô Adnet, mas eu usei a caixa como piada mesmo…

Bully: — Olha pra mim, tô aqui enrolando as pessoas pra revelar um segredo muito ruim hahaha!

João: — Mas essa era justamente a minha piada…

Bully: — PARA PARA PARA! O que tem na caixa??? Outra caixa!!! OTÁRIO!

João: — Mas foi o que eu disse…

Hienas: — Adnet gênio!!

Chico Anysio: *se revira no túmulo*

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João, ao ter seu safe space brutalmente violado

No pior cenário, Adnet se revela um típico bully de escolinha

Como o grande Boni disse em entrevista ao UOL, o bullying de Adnet ainda esbarra num agravante estranho: zoar João Kléber é dialogar com uma parcela muito pequena da população.

Afinal, enquanto a Rede Globo sempre soma impressionantes dezenas de pontos de audiência, o Ibope de João Kleber na Rede TV orbita entre o traço e meia dúzia de pontos em dias bons. Quão limitado, então, é o alcance da sátira do Tá no Ar?

No mínimo essa piada é tão questionável quanto abrir um texto com citações de Watchmen.

Talvez eu deva abrir uma Igreja.

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