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Thomas Lá, Dá Cá

A ficção científica volta quando mais precisamos

Apesar de todo meu amor pela comédia britânica e pelos filmes de ação dos anos 1980, com todas suas explosões e esteroides, o gênero que realmente monopoliza meu coração nos cinemas é a ficção científica.

Acho que meu tio é o maior culpado por isso, me arrastando para convenções de Arquivo X e Star Trek quando eu ainda nem era velho o bastante para saber diferenciar um sabre de luz de uma chave de fenda sônica. Seja como for, esses passeios deram resultado, pois ajudaram a criar uma pessoa com a mais alta estima possível pelo sci-fi.

Como tal, cresci correndo atrás das grandes obras do gênero, como 2001, Planeta dos Macacos e Guerra dos Mundos, além de ter a sorte de poder ver no cinema grandes lançamentos como Gattaca, até hoje meu filme favorito de todos os tempos. Especialmente por essa cena linda:

https://www.youtube.com/watch?v=XBkXHz0j8LE

Foi com estranheza, então, que notei uma certa escassez no gênero após a chegada dos anos 2000. É verdade que ganhamos pérolas perdidas aqui e ali, como os brilhante Donnie Darko (2001) e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004), mas simplesmente saíram filmes o bastante para fazer justiça ao que o gênero merece.

Por muito tempo observei inquieto essa escassez, sem saber ao certo o que a tinha motivado. É verdade que a ficção científica sempre foi um gênero ignorado pela academia nos prêmios Oscar, e que mesmo seus maiores sucessos às vezes são ignorados pelo público.

Diabos, o próprio Blade Runner fracassou em bilheteria e só foi redescoberto nos anos seguintes, virando um sucesso cult de nicho.

Mas hoje, quando o gênero parece estar voltando aos seus melhores dias, eu creio ter encontrado uma explicação para esse lapso. (Que fique claro, isso é apenas uma teoria que você pode ou não escolher acreditar. Lembre-se que a verdade está lá fora) Dito isso, me parece que a ficção científica prospera quando a humanidade chega aos seus pontos mais baixos de inteligência.

Pense, por exemplo, na Guerra Fria, o confronto entre os Estados Unidos e a União Soviética, que tinham poder bélico suficiente para, com suas bombas atômicas, dizimar a vida na Terra nada menos que 10 vezes. O quão estúpido era isso? Como chegamos nesse ponto?

Ainda assim, o terror e tristeza que atormentavam as pessoas de todo o planeta acabaram servindo como um boa força criativa. Quantos filmes e séries não aproveitaram o tema de forma literal ou metafórica numa tentativa de conscientizar as pessoas sobre os rumos tenebrosos que a humanidade trilhava?

Mesmo O Dia em que a Terra Parou (1951), um dos maiores clássicos do gênero, claramente abordava metaforicamente o conflito, quase que implorando aos espectadores, com sua mensagem pacifista, que buscassem a paz na Terra.

Se levarmos em conta que a Guerra Fria só foi encerrada em 1991, não me parece absurdo atribuir uma parcela de “culpa” ao conflito pelo fato de tantos filmes inteligentes e de bom gosto terem sido produzidos no período. Afinal, praticamente todas as obras citadas acima foram lançados nesse período ou pouco depois de sua resolução. O que, claro, pode ser apenas uma coincidência. Ou não.

De todo modo, entre os anos 2000 e 2010, quando a humanidade viveu em relativa tranquilidade (ao menos no que diz respeito a conflitos bélicos de grande escala), não foram lançados tantos filmes de gênero quanto antigamente. Afinal, que tipo de comentário social ou mensagem você pode passar quando as pessoas vivem razoavelmente felizes e tranquilas?

O curioso é que, com a chegada dos anos 10, o gênero passou por uma espécie de retomada, exatamente quando, veja só, a humanidade recomeçou a trilhar o caminho da ignorância:

Quando nos tornamos escravos da tecnologia e das cruzadas de ódio virtual, a ficção científica encontrou um novo terreno bem fértil para explorar.

Mais uma vez, é preciso relativizar as coisas. A problemática que vivemos nos anos 2010 não é tão clara, óbvia ou preocupante quanto uma bomba nuclear, mas nem por isso deixa de ser perigosa. Da desigualdade social ao terrorismo, da vigilância do Estado onipresente às pessoas colocando suas vidas em aparelhos celulares, da manipulação de massas ao preconceito, passando por cruzadas descerebradas em busca de justiça social, há muito material inquietante por aí digno de inspirar grandes filmes e séries.

E foi o que aconteceu.

Apenas para citar alguns, nos últimos anos fomos agraciados com obras como Lunar, Snowpiercer, Cloud Atlas, Ex Machina, Her e a magistral série Black Mirror, uma espécie de Além da Imaginação moderno, mas agora totalmente focada em criticar nossa submissão às tecnologias.

Vale notar que, assim como a Guerra Fria não chegou ao fim por causa dos filmes sobre ela, não acredito que essas obras, por si só, sejam capazes de resolver nossos problemas modernos.

Mas todas elas podem, e com certeza conseguiram, botar uma pulga atrás da orelha daqueles entre nós que são capazes de pensar nos problemas e debater pacificamente sua solução. E como os Gi JOEs me ensinaram, “conhecimento é metade da batalha”. É nos tempos de crise e intolerância que mais precisamos de filmes inteligentes para nos fazer questionar o mundo e, quem sabe, remar contra a maré e tentar fazer dele um lugar melhor.

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