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Especial Thomas Lá, Dá Cá

Ricky Gervais e o valor da ofensa inteligente (ou “Por quê Rafinha Bastos e Danilo Gentili não são bons comediantes”)

No último domingo (10) o mundo assistiu — ou provavelmente dormiu ao longo de suas estafantes três horas de duração e só viu os vencedores na internet depois — a entrega do prêmio Globo de Ouro.

Quem estava por fora do mundo das premiações e só se atualizou no dia seguinte provavelmente leu e viu mais textos sobre as ”polêmicas” do comediante Ricky Gervais do que sobre a vitória de O Regresso, Iñárritu e Leo DiCaprio, o que realmente importava para o mundo do cinema.

Porque, claro, não há nada que o mundo virtual goste mais do que berrar sobre o quanto está se sentindo ofendido pela polêmica do dia. Quem liga para um premiozinho bobo quando tem treta rolando?

Entre leigos completamente alienados sobre a carreira de Ricky Gervais, sua carreira e vida pessoal (não que as pessoas sejam obrigadas a saber que ele é um ferrenho defensor de direitos dos animais, extremamente vocal sobre o fim da intolerância religiosa e frequentemente defensor de minorias) e paladinos da justiça social virtual ansiosos para dar o bote na primeira causa que aparece, não raro encontramos textos na linha do lamentável “Precisamos falar sobre o preconceito de Ricky Gervais”.

Mas será que o que precisa ser desconstruído não é justamente a ignorância da geração Tumblr? (Acredito que isso é um nome menos ofensivo que “flocos de neve” ou “bobinhos ativistas em modo piloto automático que voam nas postagens e redes sociais ao primeiro sinal de violação de seu “espaço seguro’”, mas me corrijam se estiver errado lá nos comentários, pois como a internet já deixou claro, é difícil raciocinar direito na minha condição de homem branco cis hétero)

Entre as dezenas de piadas proclamadas por Gervais naquela fatídica noite, talvez nenhuma seja mais engraçada que ver anônimos ficando mais ofendidos que as supostas “vítimas” das piadas.

Mas antes de explorar as razões pelas quais o “sexismo” e “preconceito” de Gervais é não apenas aceitável, mas também louvável, vamos contrapor seu trabalho ao de outros humoristas tidos como “polêmicos” — que, como espero provar, são apenas tolos completamente desprovidos de talento, graça e bom senso.

A seguinte piada é de autoria de Rafinha Bastos:

[AVISO: ALÉM DE NÃO TER GRAÇA ALGUMA A PIADA FAZ APOLOGIA AO CRIME E NÃO É RECOMENDADA PARA MENORES DE IDADE {NEM PARA SERES RACIONAIS}]

“Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia… Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade. Homem que fez isso não merece cadeia, merece um abraço. ”

O “humor” que ele tenta criar, sua punchline, consiste em deturpar as expectativas das pessoas e mostrar que o estupro poderia ser tido como algo bom para uma pessoa “encalhada” à luz do ponto de vista exposto. Rafinha literalmente afirma que o autor do estupro estaria fazendo um favor à estuprada dentro do cenário que construiu.

Embora graça seja algo absolutamente subjetivo, e toda piada seja efetivamente capaz de ofender alguém em algum lugar do mundo pela própria natureza cruel do humor, que inerentemente exige que se ria de alguém e/ou de alguma coisa, existe uma linha.

Ou melhor, várias linhas estipuladas claramente no nosso Código Penal. Rafinha pega uma situação explicitamente tipificada como criminosa e, na tentativa de fazer humor, enaltece a figura do estuprador. Trata-se inequivocadamente de uma piada criminosa e totalmente passível de processos por fazer apologia ao estupro.

Igualmente desprovido de graça, Danilo Gentili também se aventura nas piadas sobre minorias e oprimidos em geral. Antes de ser inocentado das acusações de racismo ao oferecer bananas para um seguidor negro se calar no Twitter (pois é, hilário, não?), Danilo já pagava mico com a seguinte piada altamente sexista:

[AVISO: AH, A MESMA COISA LÁ DO RAFINHA. SE VOCÊ LEU AQUILO JÁ SABE O QUE ESPERAR AGORA, NÉ?]

“Eu lembro que durante a campanha a Dilma falava uma coisa assim: ‘eu vou ser a mãe do brasileiro’ e eu falava ‘vai tomar no cu, Dilma, eu já tenho mãe. Você nem parece minha mãe. Talvez meu pai, minha mãe não. Se a Dilma fosse minha mãe, eu não estaria aqui hoje. Com seis meses de idade eu teria morrido, porque nem fodendo eu ia chupar aquela teta!”

A piada, como fica claro, equivale ao duro trabalho de pesquisa e estudo realizado por um bully no segundo ano do primário quando quer ofender um coleguinha, tendo como principal arma rir de pessoas que ele considera feias. Resumindo estas linhas de asneira do Danilo, sua “piada” se resume a um literal “haha, minha presidente é tão feia que parece um homem”. Sim, é sexista, lamentável e absolutamente desprezível.

Agora que estabelecemos claramente o que seriam piadas ruins tanto interpretadas em seu contexto como analisadas literalmente, já podemos entender como as frases de Ricky Gervais, embora também dotadas do potencial de chocar e esbarrando em temas tidos como tabu, passam uma mensagem totalmente diferente.

Então vamos lá, partindo de seu monólogo de abertura no Globo de Ouro:

https://www.youtube.com/watch?v=jnIGdb-sT-s

Imagino que fique imediatamente evidente que gente como o Ricky e Louis CK (tidos por muitos, inclusive este que vos escreve, como os melhores comediantes da atualidade) fazem piadas espinhosas não para jogar o assunto no ar e polemizar de forma barata como nossos outros objetos de estudo, mas pra cutucar a sociedade. Eles tratam o humor como uma forma de pegar bem na ferida dos alienados e, com isso, tornar o mundo um lugar um pouco melhor.

Por exemplo, quando Ricky fala “aproveitem essas atrizes mexicanas antes que seu futuro presidente Trump as deporte”, a piada não está na nacionalidade das atrizes ou no fato delas serem minorias oprimidas. Ricky aponta o dedo e gargalha dos potenciais eleitores de Donald Trump, tanto na plateia como em casa, mulas que realmente poderiam pensar uma asneira dessas de forma literal.

Sua elegante piada, então, protege as minorias oprimidas e inverte o ônus da graça para os preconceituosos. O que mais se pode pedir de um comediante além de risos e bons exemplos?

Do mesmo modo, quando Ricky sarcasticamente decreta que:

“Filmes com mulheres estão bombando agora. Há um remake de Ghostbusters estrelando apenas mulheres em andamento! E isso é ótimo para os estúdios, porque eles garantem uma alta bilheteria revivendo a marca, e nem precisam gastar muito dinheiro com o elenco!”

O comediante não está rindo das mulheres que ganham salários menores que os homens em Hollywood, muito pelo contrário! Ele aponta o problema sem jamais chegar remotamente perto de compactuar com ele, com o fim único e exclusivo de dar ainda mais evidência ao caso.

É o humor sarcástico, aquela risada do absurdo constrangedor que Gervais popularizou tão bem em seu seriado The Office.

Ao jogar a piada para o absurdo que é a diferença de salário entre sexos, Ricky se distancia de Gentili e Bastos que, como vimos acima, provavelmente fariam essa piada de forma literal dizendo algo como “haha, mulheres ganham menos!”, apagando todo o contexto que lhe dá graça e focando apenas na opressão gratuita.

Assim, Ricky escapa incólume da piada feita com um assunto tido como tabu pois seu texto é feito para, além de causar risos, conscientizar quem poderia ter esperança de ser conscientizado, e divertir quem já repudia o pensamento preconceituoso e sexista.

Há quem argumente que, ao levar para milhões de espectadores um problema real em forma de piada, Ricky Gervais poderia, acidentalmente, estar incentivando que milhões de pessoas tomassem suas anedotas como algo literal, sem interpretar o subtexto e servindo de exemplo ruim. Embora o estudo ético e moral dessa afirmativa seja digno de inspirar um TCC, não creio que chegue remotamente perto da verdade.

Indo além, censurar e combater um humorista que usa temas espinhosos para espalhar boas ideologias seria um desserviço. Primeiro porque é difícil imaginar que o humor tenha o poder de fazer uma pessoa até então decente se converter em um preconceituoso eleitor do Bolsonaro (#MomentoPolítico), mas especialmente porque, se começarmos a pensar que a piada inteligente precisa ser previamente censurada pelo efeito que pode causar em imbecis, parece lógico imaginar que seria apenas uma questão de tempo até o discurso inteligente deixar de existir por completo. E quem quer algo assim?

É necessário ter gente como o Ricky Gervais em atividade, e ele não deve reduzir as suas piadas ao nível dos infelizes ignorantes que já têm preconceitos. Não só porque esse pessoal, não importa o que o comediante diga, vai continuar em negação, chegar em casa e dar um compartilhamento na página “orgulho de ser hétero”, mas porque, ao seu jeito, o humor inteligente e a boa ofensa ajudam a botar os ignorantes em seu devido lugar: como alvo de piada e chacota da parcela mais esclarecida da sociedade.

https://www.youtube.com/watch?v=O642P_rMGsQ

Então, da próxima vez que pensar em taxar uma piada como transfóbica só porque um transsexual é personagem nela (como quando Gervais cita Caitlyn Jenner, rindo não de sua sexualidade, mas do fato dela ser potencialmente uma assassina, expondo o modo como celebridades escapam impunes), homofóbica porque um gay é citado, ou sexista porque a piada envolve mulheres, lembre-se de avaliar todo o contexto e tom em que ela foi dita antes de tirar conclusões.

Senão corre-se o risco de rotular como preconceituosa qualquer piada que esbarre num tema tido como tabu, o que desperdiçaria a oportunidade de encarar piadas como um modo válido e necessário de fazer as pessoas refletirem sobre problemas reais.

E é isso, acima de todo o talento e graça, que diferencia os Gervais dos Bastos e Gentilis do mundo.

Agradecimentos especiais à Luciana Anselmo e Gerhard Brêda. de quem eu posso ou não ter roubado algumas citações e ideias ao longo do texto, e ao Leandro Rizzardi por ter criado um tópico no Facebook onde rolou o debate altamente civilizado e produtivo que gerou esse artigo.

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