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Cinema e TV Críticas

Peaks Temporada Twin 3 Crítica

Eu não me sinto a pessoa mais qualificada do mundo para analisar Twin Peaks, mas, até aí, imagino que pouca gente se sinta realmente preparada para uma tarefa dessas. Até porque quem se sente assim tem mais chances de ser um arrogante não justificado do que um gênio como David Lynch. Gênio como David Lynch.

Do mesmo jeito que não é preciso ser um estudioso de arte para poder admirar um belo quadro, até um tolo como eu é capaz de assistir maravilhado as lindas tomadas que o diretor e seu showrunner parceiro Mark Frost, trouxeram para a telinha. Posso não conhecer os quadros surrealistas de Magritte que tanto inspiram Lynch, muito menos o fino jazz tocado na Roadhouse, mas diabos, se Twin Peaks mesmo assim não foi hipnotizante! Hipnotizante.

Mais de duas décadas após o “fim” precoce de uma das séries mais importantes de todos os tempos, Lynch e Frost ousaram trazer para o canal pago Showtime algo totalmente diferente do que estamos acostumados a ver na televisão dos anos 2000, um produto desafiador e repleto de possibilidades. Mesmo com alguns novos rostos, temas e ambientes, ao menos neste sentido Twin Peaks segue como sempre foi: estranha e instigante. Sempre foi.

Futuro ou passado? Futuro ou passado? Passado

A maior parte do elenco da série clássica aceitou repetir seus papéis na nova temporada. Fora algumas poucas ausências notáveis, como Harry Truman e Donna, velhos amigos como Hank, a Log Lady, Doutor Jacoby, Andy, James, Bobby e Cooper estão de volta, ou quase isso. Quase isso.

Enquanto a maioria dos programas se contenta em fazer fan service barato, entregando à sua audiência exatamente o que ela quer sem maiores desafios, Twin Peaks não seria Twin Peaks se não ousasse tentar algo totalmente diferente. Isso fica claro desde seu episódio inicial, que tem um ritmo inusitado, devagar, cheio de locais novos e gente estranha. Gente estranha.

Enquanto a velha cidade de Twin Peaks segue filmada do mesmo jeito que lembramos, com as mesmas tomadas e palheta de cores, agora também temos arcos de histórias em Nova York e Las Vegas, que aparecem filmadas de forma bem contrastante, todas modernas. Apenas um entre as dezenas de choques temporais, um dos temas centrais nesta temporada. Nesta temporada.

Ninguém encapsula essa ideia melhor do que o ator Kyle MacLachlan. Quem mal podia esperar para ver 18 horas do agente Cooper degustando cafés e tortas deliciosas teve uma surpresa e tanto ao ver o astro interpretar, bom, algumas versões novas do personagem, para usar um eufemismo livre de spoilers. Eufemismo livre.

Considerando o tempo de tela nos 18 episódios de The Return, é Dougie Jones quem leva adiante a nova trama de Twin Peaks. Uma alma inocente praticamente perdida em uma sociedade hipócrita de valores falidos. Um homem puro que se vê obrigado a mergulhar em um mundo de mafiosos, golpes em seguradoras, luxúria e conspirações. Aparentemente perdido, mas, também, um dos poucos que realmente sabe o que faz.  Sabe o que faz.

Albert.
Albert.
Albert.

Futuro ou passado? Futuro ou passado? Futuro

Mesmo com novas direções e possibilidades narrativas, Twin Peaks é, sempre foi e sempre será a história de Laura Palmer. Ainda que em muitos episódios o seu rosto só seja mostrado na linda abertura, embalada pelo marcante tema do mestre Angelo Badalamenti (que segue comandando a trilha da série com novas e lindas canções), Laura segue onipresente no imaginário da série. No imaginário.

É quase como se o novo Twin Peaks fosse uma ampliação natural do escopo das duas primeiras temporadas. Se os anos iniciais mostravam uma cidade disposta a varrer a morte da namoradinha da América para baixo do tapete, a última temporada parece um espelho ainda mais pessimista de nosso mundo. Pessimista.

Escrutinar (para então avacalhar com) o sonho americano é um mote onipresente na carreira de Lynch, e ainda que os Estados Unidos pós-Trump sejam um alvo fácil para o cineasta, a impressão é que a história escrita foi muito além, analisando a própria natureza do bem e do mal na sociedade. Bem e mal.

O lore da série é expandindo, com toneladas de respostas (e ainda mais perguntas!) sobre Bob, o Gigante, Judy e as investigação do FBI, ao mesmo tempo em que seguimos os dramas mais mundanos e pesados, desde brigas no trânsito e uma mãe drogada que larga seu filho. até tiroteios em bairros teoricamente pacatos. Há explosões nucleares e criaturas nascidas do ódio, mas também esperança. Esperança.

Se a nova Twin Peaks é a mais sangrenta, perturbadora, assustadora (e indispensável!) temporada até então, também é a que traz mais momentos de alegria pura e inconteste. Por baixo de toda a escuridão e acidez, Lynch e Frost não têm medo de ser piegas, e apontam soluções e desfechos felizes para quem está disposto a vê-los. Disposto a vê-los.

Sempre com a certeza de que o caminho para a luz passa necessariamente pela escuridão. Que a dor não é algo que deve ser esquecido e ignorado. Que a morte da Laura deve doer para sempre. Mas que nem por isso se deve negar um café ou um sonho com a Monica Bellucci quando a oportunidade surge. Somos sonhadores, mas a realidade cabe a todos nós. Todos nós.

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