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Críticas Música

Noel Gallagher mira alto e acerta na lua em novo disco

Noel Gallagher pode até ainda ser mais conhecido como o ex-guitarrista, vocalista e compositor do Oasis mas, no que depender de seu novo disco, é bem possível que os seus High Flying Birds tenham acabado de dar o primeiro passo para mudar essa imagem. Afinal, a nova proposta sonora mostrada no disco Who Built the Moon? é muito interessante e certamente tem o potencial para redefinir paradigmas não apenas para o músico, mas também para o rock como um todo.

Enquanto os dois primeiros discos da banda até tinham lá suas ousadias pontuais, e acréscimos de instrumentos de sopro aqui e ali (como os infames “SAXAPHONES”, como cunhado pelo irmão Liam Gallagher), ainda permanecia a sensação de que os álbuns eram uma espécie de pacote de expansão da discografia do Oasis. Finalmente, Noel parece disposto a se liberar de vez das amarras com sua antiga banda. Ou quase isso.

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Após três audições completas, a minha impressão é a de que Noel conseguiu realizar, finalmente, o álbum que ele gostaria de ter feito já em Standing on the Shoulder of Giants. Na ocasião, provavelmente ainda lhe faltava muito da maturidade que ganhou desde então, sem falar no conhecimento, virtuose, contatos, e até uma banda de apoio capaz de fazê-lo se desafiar e motivar.

Embora Fucking in the Bushes seja uma abertura de disco magistral em SOTSOG, a verdade é que as faixas seguintes do álbum não conseguiam chegar à sua altura. Os eventuais flertes com rock mais pesado e psicodelia traziam apenas resultados mistos, com raros golpes certeiros. Já em Who Built The Moon?, Noel conseguiu criar um disco praticamente impecável da primeira até a última faixa.

A maior evidência de que eu estava diante de um grande disco veio justamente em um de seus singles principais, Holy Mountain. Tão logo a faixa foi lançada no YouTube, fiquei bastante cético com o direcionamento que a obra parecia tomar e, francamente, não gostei nem um pouco do resultado, chegando a temer pelo pior. Especialmente quando, do outro lado de Manchester, Liam Gallagher estava entregando uma versão muito competente do bom e velho oasis em seu ótimo disco As You Were.

No entanto, assim que terminei de ouvir Who Built the Moon? inteiro pela primeira vez, e voltei para ver o que eu achava de Holy Mountain,  consegui enxergá-la com outros olhos. Inserida no contexto psicodélico, experimental, mas também extremamente enraizado no melhor rock britânico tradicional, aconteceu um estalo e consegui apreciar a música como sempre deveria ter feito.

E é justamente isso que um bom disco deve fazer: as faixas de Who Built the Moon? dialogam entre si, se completam e se ajudam a criar uma obra única com proposta e mensagem clara e coesa. Faixas fora de série como Be Careful What You Wish For e It’s a Beautiful World deixam claro que Noel nunca se esqueceu de suas influências confessas de Beatles e Bowie mas, mais do que nunca, elas são acompanhadas por outras paixões do compositor.

Pitadas de glam, de eletrônica e da cena clubber inglesa são perfeitamente intercaladas com orquestrações pontuais, cortesia da redondíssima parceria com o produtor David Holmes que, a despeito da ousada premissa, conseguiu não pesar a mão mais do que o necessário, de forma que cada faixa soa como uma pequena experiência auto contida, mas paradoxalmente bem conectada com o que vem depois, sempre caminhando em direção de um clímax apoteótico.

Para cada passo nostálgico (o que é Dead on the Water senão uma balada lindíssima que poderia ter sido escrita na mesma noite de Talk Tonight?), são dados dois passos para frente em direção a locais nunca antes explorados na rica discografia dos irmãos Gallagher. Embora seja compreensível que alguém ainda sinta falta desta que foi uma das melhores e mais relevantes bandas de rock, a verdade é que realmente não temos do que reclamar em 2017.

Afinal, este ano Liam Gallagher lançou um disco perfeito para quem sente falta de ser Mad Fer It e de cantar alto tanto o rock eletrizante de faixas como Bring it on Down como as baladas adocicadas à la Wonderwall ou Don’t Go Away.

Enquanto isso, Noel foi ainda mais longe e, honrando a fama de ser um dos melhores compositores da história, conseguiu deixar o passado onde ele deve ficar, e usou todo o seu talento para pintar um futuro novo e absurdamente promissor. Um disco essencial e, espero, o sinal de que coisas ainda mais empolgantes estão por vir.

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