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Cinema e TV Críticas

Alien Covenant é, surpreendentemente, um grande filme sobre robôs!

Quando o diretor Ridley Scott decidiu reviver a franquia Alien através de Prometheus, sua base de fãs ficou dividida. Ok, na verdade isso é eufemismo: parece que uma maioria considerável odiou o filme, seja por suas convenções datadas (cientistas burros demais), falta de foco nos xenomorfos, ou conexão sutil demais com os outros filmes. Se você faz parte desse grupo, provavelmente não vai encontrar muito para se alegrar em Covenant, a sequência direta de Prometheus. Mas nem por isso deve se afastar automaticamente, já que trata-se de um filme mais redondo e, francamente, mais interessante que boa parte da série.

Para quem se importa com isso, Covenant faz um trabalho competente ao tapar parte das lacunas existentes entre Alien 1 e Prometheus, dando mais coesão ao lore da franquia. Se Prometheus era um filme sobre perguntas, Covenant é sobre respostas. Quer saber como era o lar dos engenheiros, como surgiram os aliens e o que aconteceu com a Dra. Shawn e David após os eventos do filme anterior? Não se preocupe, pois tudo é mastigadinho, e nenhuma das pontas abertas deixadas para o inevitável desfecho da nova trilogia fica tão aberta quanto as do filme anterior.

Dito isso, a grande verdade é que Covenant pode ser muito melhor apreciado quando alienado da parcela Alien do filme. Na verdade, todos os seus problemas derivam diretamente da obrigação de ter xenomorfos matando ainda mais cientistas idiotas. Se os exploradores de Prometheus eram bem burros, os de Covenant não parecem sequer capazes de passar no mais básico exame psicotécnico. É um festival de burradas e decisões equivocadas sem precedentes, que aproximam algumas cenas da pura comédia não intencional. Nessa brincadeira, aqui e ali Scott ainda nos lembra do quão bem ele sabe filmar mortes brutais e repletas de sangue, mas o custo dessas cenas é muito alto para quem se importa com uma história de qualidade.

Ironicamente, é quando Covenant se afasta da nova tripulação sem carisma e de suas inevitáveis mortes horrendas que ele realmente brilha a prova seu valor. Pois é, apesar de todos os problemas sérios apontados acima, há uma virtude gigantesca no filme, que quase redime todos os seus vacilos. Essa virtude atende por dois nomes: John Logan e Michael Fassbander.

Começando pelo ator, mais uma vez ele rouba a cena e prova ser um dos nomes mais talentosos do cinema moderno. Seu novo papel como androide é extremamente desafiador, mas Michael consegue dar a ele uma profundidade e complexidade única. E aqui caímos no segundo nome, John Logan: o cara é fera nos roteiros, e já tinha provado na série Penny Dreadful e no filme 007 Skyfall que entende muito bem como escrever diálogos fodas.

Quando Michael lê o seu texto, algo mágico acontece e, da forma mais improvável, Covenant subitamente larga suas origens em Alien e, com todo o peso das palavras devidamente medido, se aproxima de uma legítima sequência de Blade Runner. Há debates extremamente interessantes sobre a moral e vida dos andróides aqui, e qualquer um que tenha um mínimo de apreço pela tema vai se deliciar com Covenant, até porque o arco de David consome mais da metade do filme. Esse núcleo funciona tão, mas tão bem, que apenas ele consegue ser unido de forma legal com a explicação desnecessária sobre a origem dos xenomorfos.

Ao terminar de ver Covenant, não fica exatamente um sentimento de potencial desperdiçado, já que o resultado final ficou excelente, mas sim um certo pesar: se pelo menos o filme tivesse ainda mais robôs e menos alienígenas, poderíamos estar diante de um clássico moderno da ficção científica. Mas como os cientistas burros continuam dando as caras, o veredito é “apenas” um respeitável: “Porra, que filme legal!”

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