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Opinião: Jogar videogame no Brasil é uma missão Extra Hard

Há pouco mais de um ano estourou a notícia de que a Nintendo deixaria de ter um distribuidor oficial de seus produtos no Brasil. Na época a alegação foi de que era insustentável manter um negócio saudável com a tributação absurda imposta pelo governo brasileiro, principalmente sobre os produtos importados. Após quatro anos de representação, a Gaming do Brasil encerrou suas atividades e deixou uma legião de órfãos que se estendeu do Oiapoque ao Chuí, mesmo que boa parte deles sequer tenha compreendido naquele momento o quão impactante isso poderia ser. Em janeiro de 2015, exatamente no dia em que a notícia foi publicada, o dólar estava cotado em R$2,639.

Uma opção melhor que viver de importação seria produzir seus jogos internamente, exatamente como fazem os seus concorrentes diretos Microsoft e Sony. Mas logo essa possibilidade foi descartada, uma vez que Bill van Zyll, diretor geral da Nintendo para a América Latina, afirmou que “estabelecer um processo local de fabricação é complexo e caro. Não é simples. É algo que pensamos e avaliamos e, no final, por conta de uma série de fatores, analisamos que o custo benefício da produção local não é a solução certa”. Morria ali a esperança, enquanto nos preparávamos emocionalmente para as pancadas que viriam na próxima leva de jogos da Big N.

 

Um ano depois…

Passados treze meses desde então, a situação da Nintendo permanece inalterada, com preços lá em cima por conta do mercado cinza e nenhum posicionamento que possa mudar isso em curto ou médio prazo. Tivemos variações no dólar, que chegou a ultrapassar a barreira dos R$4,10 e agora permanece a apenas alguns centavos dessa marca com impacto aterrador sobre o poder de compra do consumidor brasileiro. Um título da linha de lançamentos de qualquer console de última geração não custa menos que R$200,00, podendo atingir patamares maiores. Nessa última semana, por exemplo, uma cópia de Street Fighter V para PS4 sofreu reajuste de R$250,00 para R$280,00.

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A imagem abaixo mostra bem o abismo existente entre o poder aquisitivo e a tributação de alguns países do primeiro mundo e o Brasil. Enquanto norte-americanos e japoneses só precisam dedicar os ganhos de um dia de trabalho para comprar um jogo novo, o consumidor brasileiro precisa de quase uma semana inteira de trabalho. Isso, é claro, se considerarmos que em todos os casos o profissional recebe apenas o salário mínimo.

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LOJA PLAYREPLAY

Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IPBT), mais de 70% do valor de um jogo é atribuído aos impostos estaduais e federais. Esse valor todo está distribuído entre PIS/Cofins, ICMS, IPI e Imposto de importação, entre outros. Logo, se fosse possível desconsiderarmos todas essas cobranças, um jogo novo no Brasil custaria R$60,00, algo mais adaptado a realidade do país. Um simples jogo de videogame tem a mesma carga tributária, por exemplo, de uma arma de fogo ou de alguns tipos de bebidas alcoólicas.

Com essa realidade vigente, somos levados a fazer cálculos sobre quantas horas de diversão um jogo pode nos proporcionar, já que nem sempre há verba para investir em todos os lançamentos. Um título como The Witcher 3 pode oferecer até 100 horas de entretenimento, enquanto um gênero mais simplório ofereceria um ou dois terços disso. Não por acaso, ano após ano, os jogos vêm apostando no gênero sandbox e em mapas abertos, em detrimento de experiências mais curtas ou limitadas. Prevalece apenas aquele que está atento aos movimentos do mercado.

Aí você se pergunta: Essa situação não vai mudar, mesmo o Brasil sendo um dos maiores mercados consumidores de jogos eletrônicos do mundo?

A resposta é curta e direta: Não.

Recentemente assistimos incrédulos à declaração do Ministro da Justiça brasileiro, José Eduardo Cardozo, que dizia que os jogos eletrônicos exerciam influência direta sobre a taxa de criminalidade do Brasil ao incentivar a apologia à violência. Sem nenhum embasamento, sem citar nenhum estudo, apenas jogando palavras ao vento. Disse ele:

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“A violência é hoje cultivada e aplaudida, seja em esportes ou jogos de crianças pequenas. Outro dia ouvi um especialista dizer que nunca viu um jogo em que o vencedor é quem salva vidas, pois o vencedor é sempre quem mata. Essa cultura da exaltação da violência se projeta e acaba banalizando a violência, disseminando uma realidade perversa em que seres humanos podem aniquilar, ferir ou outros em atos que são socialmente reprovados.”

E é no meio de toda essa balbúrdia que as empresas tentam sobreviver, num ambiente que as hostiliza e não dá nenhum incentivo para o seu crescimento. A saída da Nintendo do Brasil, tão mal vista pelos jogadores em geral, era apenas um sintoma de que algo vai muito mal por aqui. Vendo por esse lado, hoje, até me surpreendo que as demais empresas não sigam o mesmo caminho.

Essa situação, que pende ao ridículo, pede uma urgente mudança de paradigma, mais ou menos como a que está acontecendo no setor de TV on demand. Por lá, o Netflix vai se firmando como uma opção muito mais barata e atraente que as engessadas operadoras de TV por assinatura. O resultado disso é que as operadoras computaram a perda de um milhão de assinantes entre 2014 e 2015, enquanto o Netflix teve suas ações valorizadas em aproximadamente 140% no mesmo período, com faturamento de R$1 bilhão só no Brasil.

O ano de 2016 mal começou e nós já temos uma lista longa de lançamentos que queremos jogar, para as mais diversas plataformas. Independente de quais forem as suas escolhas, saiba que você já está jogando no level Extra Hard, sem a opção de vidas extras ou continues. No momento em que você saca o seu cartão de crédito e aceita que aquele valor é compatível com a sua realidade, você já pode se imaginar diante de um desafio muito maior que qualquer boss de videogame. Só isso já faz de você um verdadeiro herói.

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