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Séries

Gotham teve a primeira temporada que nós merecemos, mas não a que precisamos

Nos últimos anos os super-heróis tomaram de assalto não só o cinema, mas também a televisão. Ao mesmo tempo em que blockbusters (e hulkbusters!) de tirar o fôlego cativaram nossas imaginações nas telonas, tanto a Marvel como a DC decidiram levar alguns de seus nomes mais famosos para a telinha na forma de seriados.

Se a Casa das Ideais começou meio insegura com o instável Agents of S.H.I.E.L.D. e a bem intencionada – porém pouco cativante – Agent Carter, parece que a Netflix virou a grande redentora da editora, hospedando a excelente série do Demolidor e prometendo repetir a dose com Luke Cage, Punho de Ferro e companhia.

A DC, por outro lado, conseguiu marcar seu território bem mais cedo. Já levando o sucesso de Smallville em sua bagagem, a tradicional editora apostou novamente no canal The CW para emplacar Arrow e The Flash.

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Ao levar seus heróis para a tv aberta, a DC precisou amenizar um pouco o tom e a violência e apostar mais em narrativas divertidas, mistérios, casos da semana e romances. Nada errado com isso, claro, mas será que essa fórmula também funcionaria ao levar um de seus heróis mais dark para a FOX? Bom, sim e não.

Gotham, como o próprio nome indica, não é um programa sobre o Cavaleiro das Trevas, mas sim sobre a cidade e seus habitantes. Sobre a relação entre a polícia, a máfia e como o homem comum pode ser pego nesse fogo cruzado. Justiça seja feita, é uma ideia muito boa no papel.

Uma ideia que fica ainda melhor por podermos acompanhar os primeiros anos de Jim “futuro comissário” Gordon (o não mais que competente Ben McKenzie) no Departmento de Polícia de Gotham City. Então por que Gotham não é a série favorita de todo fã de quadrinhos no planeta?

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Talvez o principal problema da primeira temporada de Gotham tenha sido a incerteza da produção sobre qual a melhor estrutura para o programa. Enquanto alguns episódios são focados em investigações semanais auto-contidas (como visto em The Ballonman e nos ótimos The Blind Fortune Teller e Red Hood), outros arcos gastam três ou quatro capítulos arrastados para resolver uma história (como o caso do serial killer Ogro na reta final da temporada).

Isso não seria tão ruim se algumas histórias não fossem sacrificadas no processo, deixando a clara impressão de que os roteiristas não sabiam para onde caminhar com a trama. Ao longo de desnecessários 22 episódios temos lampejos de contos que poderiam render bons arcos, mas que são abandonados antes de ter chance de nos cativar.

E nem estamos falando das dezenas de vilões que aparecem – de forma um tanto forçada até – em versões mirins pelas ruas de Gotham em micro aventuras irrelevantes travestidas de fan service, mas sim de arcos que nos foram apresentados com a clara promessa de que renderiam algo mais, mas que não deram em nada.

Por exemplo, depois de ser afastado da polícia, Jim Gordon é enviado para trabalhar no Asilo Arkham, objeto de interesse de diversos mafiosos e até mesmo de alguns membros da Wayne Enterprises. Não seria demais passar um ano inteiro aprendendo sobre como a instituição foi criada e gerida, ao mesmo tempo em que Gordon interage com prisioneiros perigosos?

Talvez, mas essa é uma série de episódios que nós nunca poderemos ver, já que Jim passa apenas um episódio como funcionário do Asilo. Assim como nunca veremos uma temporada sobre os experimentos insanos do Dr. Francis Dulmaker, que aparece em apenas quatro episódios gerenciando uma perturbadora instalação médica responsável pelo roubo de órgãos de seus prisioneiros.

E os problemas com história e personagens vão ladeira abaixo. A detetive Renee Montoya (Victoria Cartagena), por exemplo, passa os primeiros episódios suspeitando de Jim Gordon, revela ter um romance com Barbara Gordon (Erin Richards, perdidinha com uma personagem insana), e… simplesmente desparece no meio da temporada, sem qualquer espécie de resolução para a personagem. Que bagunça!

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E o que dizer de Fish Mooney (Jada Pinkett Smith)? A personagem, uma das poucas criadas exclusivamente para o seriado, cometeu o pecado de já nascer com data de validade carimbada na testa, já que a própria atriz dizia não ter certeza sobre seu retorno para uma eventual segunda temporada.

Assim, apesar de protagonizar vários momentos interessantes de conflito no submundo de Gotham, a partir da segunda metade da temporada a mafiosa é jogada para escanteio, participando de subtramas aqui e ali enquanto os roteiristas não se decidiam sobre qual seria o melhor momento para matá-la.

Afinal, não é como se alguém assistisse a série pensando que ela poderia virar uma rainha do crime e tomar a coroa do Pinguim, seguramente o melhor elemento da temporada. Se alguém pensava que a ausência do Batman e do Coringa impediria o espectador de se sentir assistindo uma verdadeira história do Morcegão, o brilhante Pinguim de Robin (que irônico o nome do ator, não?) Lord Taylor mais do que segura as pontas.

Vê-lo manipular a máfia, passando de marionete do chefão Don Falcone (John Doman) para um verdadeiro gênio do crime, é um deleite e o coloca lá em cima entre os grandes atores e personagens do universo DC. O ponto alto da temporada ocorre justamente no episódio The Penguin’s Umbrella, quando todo o seu jogo e manipulações são reveladas para o público.

Apesar de não um décimo do tempo de tela do Pinguim, também dá para curtir bastante o desenvolvimento do Edward “Charada” Nygma de Cory Michael Smith. Sua atuação tem um quê de Jim Carrey e nos permite simpatizar com o trágico personagem mesmo depois que ele passa de um apaixonado platônico tímido para um psicopata.

E, claro, não podemos nos esquecer da peça central do tabuleiro, o jovem Bruce Wayne (David Mazouz). É impossível contar a história de Gotham sem mencionar os Wayne, mas infelizmente fica a impressão de que erraram a mão e exageraram nas doses de Batman mirim. Diabos, ele ainda é um garoto de 13 anos, não o maior detetive do planeta! Pelo menos não ainda…

Por mais legal que seja o Alfred de Sean Pertwee, só é possível aguentar a versão baby de Bruce Wayne e Selina Kyle (Camren Bicondova) até certo ponto. Provavelmente os roteiristas achavam que essas interações entre o pequeno Batman e personagens que ele encontraria várias vezes na vida adulta fariam a alegria dos fãs, então é triste que o abuso do recurso seja justamente o calcanhar de aquiles da série. Soa gratuito, sem propósito e, principalmente, deixa de divertir rapidinho.

Com tantas ressalvas e episódios fracos minando uma premissa super interessante, não foi dessa vez que o herói mais famoso da DC ganhou uma série à altura de seu legado. Infelizmente, até agora a segunda temporada conseguiu ser ainda mais defeituosa que a primeira, mas isso é assunto para outra postagem…

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