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Cinema e TV Críticas

Game of Thrones troca coerência por ritmo na sétima temporada

Não é maravilhoso quando você assiste um seriado por seis anos e, no sétimo, decidem jogar fora todas as regras que foram estabelecidas com tanto cuidado até então? Pois foi exatamente isso que a HBO fez com Game of Thrones em sua sétima temporada. Dando uma banana para a lógica interna do programa, a penúltima temporada da fantasia medieval abusou do seu lado fantasia para criar situações simplesmente estapafúrdias.

Se as temporadas anteriores pecavam por seu ritmo devagar quase parando, o que era ao mesmo tempo uma maldição e um feature da série (já que teoricamente a graça estava na extremamente longa jornada entre dois pontos e como os personagens se desenvolviam em ritmo de tartaruga pelo caminho), agora a série parece ligada no modo NUNCA MAIS EU VOU DORMIR, NUNCA MAIS EU VOU DORMIR!!!

Vale o aviso: INACREDITAVELMENTE, o texto a seguir, sobre a sétima temporada, TEM SPOILERS SOBRE A SÉTIMA TEMPORADA! Siga a leitura por sua conta e risco

Pegue o praticamente irrelevante Gendry como exemplo. O personagem reaparece na metade de um episódio trabalhando na Baixada das Pulgas, onde esteve parado por ANOS. Minutos depois, ele já pega um barco e aparece magicamente para lá da Muralha ao lado do time B dos Mercenários, e então partem para uma longa, longa caminhada no gelo. Bom, não tão longa assim, já que no episódio seguinte o mesmo Gendry parte em uma corrida de volta ao ponto de partida, que prova que o exército inimigo está a pouco mais de um dia de caminhada de seu destino.

Este é apenas um pequeno exemplo de como o teleporte foi utilizado na temporada. Em praticamente todos os episódios, muitas vezes por mais de uma vez, personagens percorriam distâncias incríveis em um micro período de tempo. O exército da Dany precisa de ajuda do outro lado de Westeros? Nada tema, pois os dragões estarão lá em 10 minutos! Tyrion precisa bater um papo sozinho com Jaime? Sem problemas, vamos colocá-lo lá rapidinho. Jon está preso e sozinho? Soca um Tio Benjen Ex Machina aí!

Isso funciona como uma faca de dois gumes. Por um lado, os episódios ganham um ritmo frenético, do tipo que nunca se viu antes na série. Por outro, fica a sensação de que tudo que foi visto até então não serviu para nada, já que bastou acabar a adaptação dos livros para que os roteiristas criassem suas próprias regras e ritmo, totalmente destoantes do produto que existia até então.

Mesmo relevado o teleporte, o seriado segue com mais furos do que um delicioso queijo suiço, abusando de soluções preguiçosas pelo caminho. Após uma excelente batalha entre o exército de Jamie e os dragões da Dany, por exemplo, o irmão de Cersei tem um final simplesmente desastroso: roubando uma página do manual de estupidez da série The Walking Dead, Game of Thrones tem a coragem de fazer “suspense” em um final no estilo “nossa, será que ele morreu?! Descubra no próximo episódio!” Simplesmente patético.

Mas nada conseguiu ser pior que o arco de Winterfell, a maior obra de comédia transmitida na televisão desde o Flying Circus do Monty Python. A história do Mindinho é digna de figurar entre as grandes obras da humanidade, pois é totalmente desprovida do menor fiapo de sentido. O personagem é uma caricatura ambulante, parecendo tramar o tempo inteiro, mesmo sem fazer ideia de qual é seu próprio objetivo. A impressão é de que, não importa o que aconteça, não interesse o quão flagrante seja seu delito, ele seguirá com um risinho no rosto dizendo “sim, sim… tudo parte do plano, tudo está indo conforme o planejado…”

O mais engraçado é quando Arya, mais perdida que cego em tiroteio, é inserida no meio de suas tramoias. Parece que coexistir no mesmo espaço que Mindinho, escondido nas sombras enquanto torce para que a garota encontre um papel BEM ESCONDIDO PRA CARALHO, foi o bastante para o cérebro da Arya dar pane e ela virar uma maníaca homicida. Por mais que ninguém goste da Sansa, o que a Arya faz em Winterfell já vale o registro de um B.O.. Onde já se viu chegar no quarto da irmã apontando uma faca pra ela e dizendo que quer o seu rosto, O QUE É ISSO, ARYA???

Entre mais e mais alucinações nessa linha, intercaladas por incrivelmente competentes cenas de guerra e ação entre dragões, chegamos ao final da temporada com a mais clara certeza de que a guideline para a temporada deixada por George R.R. Martin mostra que o autor andou assistindo um bocado de Marcelinho:

Afinal, o clímax da temporada gira em torno da revelação de mais um incestinho básico para a lista. E você pensando que ter Jaime e Cersei se comendo já era o bastante! Sabe de nada, inocente! Nem tia e sobrinho estão livres da necessidade de socar fanfic sempre que possível para fazer a fanbase no Tumblr pirar.

No fim, sentiremos saudades das maquinações e sutilezas presentes no começo da jornada, é verdade. Mas se eu for realmente honesto… olha, vou confessar que eu gosto BEM mais de assistir o Game of Thrones moderno, que joga a noção pela janela, abusa do humor não intencional e, finalmente, aceita que televisão funciona melhor quando não é um sonífero. Enquanto muitos reclamam, por todos os motivos errados, eu já estou pronto para rir ainda mais no ano que vem!

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