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Estamina Games

Estamina #10: Atari insiste em (sobre)viver APENAS de passado

A Atari continua sendo o museu itinerante mais ativo que eu conheço!

Nesta semana, a empresa anunciou orgulhosamente o lançamento Atari Vault, um pacote de 100 títulos eternamente clássicos que será disponibilizado na Steam direto do túnel do tempo ainda neste ano. Asteroids, Centipede, Missile Command, Tempest e Warlords já estão confirmados. É impossível negar que essa notícia empolgou e chamou a atenção de todas as gerações de jogadores e jogadoras. Afinal, a companhia é a protagonista das mais remotas lembranças que muitos de nós, que crescemos curtindo seus jogos, temos sobre os videogames. O que eu me pergunto é por que a Atari quer continuar sendo a Atari 1.0 da forma que sempre foi.

Antes de continuar com o meu rant, vamos voltar um pouco no tempo e relembrar bem resumidamente sua trajetória. A empresa nasceu na década de 70, ganhou 375 milhões de dólares só no ano de 1981 ao dominar 80% das vendas no ramo — era muita grana para a época, vai por mim! — e parou de produzir consoles na década de 90 para concentrar seus esforços apenas na produção e desenvolvimento de jogos. Falando de uma forma mais prática, foi das máquinas arcades para os consoles caseiros até encontrar o PC e os aparelhos de videogame dominantes do mercado (Nintendo Wii, Sony Playstation e Microsoft Xbox).

O que não falta para a Atari é história, tradição e know-how, concorda comigo? Porém, por algum mistério que eu ainda não consegui decifrar, seu direcionamento financeiro, estratégico e de marketing continua apostando alto no mesmo conteúdo que desenvolveu há cerca de 30 anos ao invés de mostrar que pode reinventar o que ela mesma popularizou: a arte de se envolver intensamente com jogos simples e de qualidade e que podem agradar a pessoas de qualquer idade.

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LOJA PLAYREPLAY

Acredito que toda criação humana é fruto de vários contextos (sociais, tecnológicos, financeiros etc) permanentemente interligados. A partir do momento em que esses contextos sofrem alterações, por motivos de pura sobrevivência do objetivo da invenção e, consequentemente, interesse do usuário, recomenda-se que as criações já realizadas sejam revisitadas dentro dos novos contextos a fim de que se descubra o rumo das criações ainda não realizadas. Infelizmente, me parece que a Atari não fez essa lição de casa.

Veja também

– Pixels, o filme: fliperama engolidor de fichas
– Thomas Lá, Dá Cá #2: Em Defesa de Pixels

Entre no site oficial da empresa agora e veja com seus próprios olhos: o tempo parou para a Atari, nada mudou do último século passado para cá. Nem mesmo o layout da página parece entender e aceitar que estamos nos anos 10 de um novo século porque 2016 seria pedir demais. Acesse a página de aplicativos para celular deles, o facebook oficial…  você continuará no século XX. É verdade que a empresa deixou de ter apenas pixels visíveis em seu catálogo ao lançar Roller Coaster Tycoon e tornou-se conhecida também por tudo o que fez em Alone In The Dark. Mas sejamos honestos: essa não é a especialidade deles, não é o que eles sabem fazer de melhor.

Eu ainda nem era nascida quando as famílias brasileiras começaram a acompanhar a proposta e, posteriormente, a atuação da Atari em nosso país. Quando ela estava começando a desistir do mercado de consoles, conheci o Atari 2600, e posso dizer que ele interferiu diretamente na construção da minha obsessão por jogos dessa natureza, jogos que possuem objetivos desafiantes ao extremo, interfaces básicas e nenhum tipo de pretensão extra como os jogos deste início do século XXI.

Esses comerciais antigos me surpreendem até hoje em vários aspectos, pois traduzem o DNA da Atari: a pura diversão. Ouso dizer que o conceito e todos os takes de cada vídeo dessa compilação funcionariam mesmo nos dias de hoje, só precisariam ser regravados, sem nenhum tipo de alteração, é claro. Fica a dica caso queiram divulgar o “novo” pacote…

Outras iniciativas recentes foram tomadas para resgatar a reputação da Atari e reafirmar seu compromisso com a história mundial dos games, como o excelente documentário Atari: Game Over (2014). Quem assistiu a esse título disponível atualmente na Netflix por tempo indeterminado, constatou que não foram somente os cartuchos da Atari que saíram do aterro de Alamogordo no Novo México. No entanto, a cada movimento de mercado como esse de reciclar uma coletânea, concluo que um desenterro real de sua história que jazia há 30 anos debaixo da terra não foi o suficiente para evitar que ela saísse da mesmice.

Veja também

– Retrô: Lembra das locadoras de games?
– Retrô: O prazer de colecionar videogames

Os melhores jogos são aqueles que vendem a ideia, a cada hora de gameplay que passa, de que você não é capaz de finalizá-los, não porque o jogo em si é mal desenvolvido/desinteressante, mas porque você ainda não é suficientemente bom/boa para tal. A Atari fez isso com maestria em seus anos dourados e pode voltar a faze-lo com novos títulos totalmente inspirados nos anos 70 e 80 em pleno anos 10 deste século. Como? Parando de lançar coletâneas atrás de coletâneas por achar que queremos nos sujeitar a continuar jogando apenas seus jogos consagrados e planejando um reboot de si própria para mostrar que pode ser a Atari que todos curtem em pleno 2016 também.

Mas é claro que eu não vou parar de jogar Centípede, ainda não conheci com minhas próprias mãos todas as versões do jogo. Só fico profundamente decepcionada ao ver que o talento e potencial da Atari não saem do limbo e das prateleiras antigas por nada nesse mundo.

Quem se interessou pelo Atari Vault, saiba que ele terá placar mundial e multiplayer local e online. O que não sabemos ainda é se será lançado mundialmente ao mesmo tempo, inclusive no Brasil, e quais são as versões de cada um dos 100 jogos que ele terá. Alguns desses detalhes só serão revelados através de uma demonstração prometida para o Pax South 2016 no Texas, EUA, entre 29 e 31 de janeiro deste ano.

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