Image default
Críticas Música

Sem ousadia, U2 soa formulaico e competente em Songs of Experience

Com 14 álbuns na conta, o U2 certamente não tem mais nada para provar a ninguém, e seu nome já figura em qualquer lista séria de maiores bandas de rock de todos os tempos. É muito difícil encontrar um disco em que Bono, The Edge e seus amigos soem abaixo de extremamente competentes, e Songs of Experience não é exceção à regra, ainda que dificilmente vá figurar entre as obras mais relevantes da banda.

Veja também:

O grande tempo de estrada, a tal experiência que dá nome ao disco, é ao mesmo tempo uma benção e uma maldição para o grupo. De um lado, fica cada vez mais complicado para a banda se renovar e encontrar diferentes truques para colocar em suas canções, já que algumas tentativas de soar jovem e novo acabam soando muito mais forçadas do que uma progressão natural de sua sonoridade. Por outro lado, quando o U2 se contenta em fazer o seu tradicional rock de arena, fica evidente que poucas bandas chegam aos seus pés, tamanho o domínio do ofício.

Love is All We Have Left é um excelente cartão de visitas e abre perfeitamente o disco. Delicada, a faixa consegue ser minimalista mesmo com algumas intervenções eletrônicas cuidadosamente inseridas pelo produtor Andy Barlow, mais conhecido por seu trabalho na banda Lamb. É um grande acerto, mas poucas faixas do disco chegam a seu nível quando tentam fazer algo novo nessa linha. A distorção pesada no baixo de Clayton em The Blackout é outro belo exemplo de ousadia que deu certo, mas os acertos são poucos e distantes entre si.

Logo na sequência, em Lights of Home, o disco ganha uma pegada muito mais radiofônica, a qual abraça pela maior parte de sua duração com resultados variados. You’re The Best Thing About Me é uma delícia de música, meticulosamente executada para grudar nos seus ouvidos com um refrão chiclete toda vida. Da mesma forma, não há dúvidas de que o refrão “You! Are! Rock and Roll!” de American Soul será executado a plenos pulmões pela plateia nos próximos shows da banda.

Mas o resultado no miolo do ábum é bem misto, possivelmente por culpa do extenso período de produção do álbum e da fartura de produtores que colocaram seus dedos nas faixas. São nada menos que 9 produtores ao todo, o que inclui  Jacknife Lee, Ryan Tedder, Steve Lillywhite, Andy Barlow, Jolyon Thomas, Brent Kutzle, Paul Epworth, Danger Mouse e Declan Gaffney. Ufa! Some a isso as diversas reescritas pelas quais as músicas passaram ao longo dos anos e fica fácil entender a sua identidade um tanto confusa.

Isso faz com que algumas músicas soem totalmente esquecíveis e destinadas a ficar perdidas na discografia da banda. Seria bem surpreendente encontrar fãs para faixas com Summer of Love e Red Flag Day, a mais fraca do disco. Como compositor, Bono também não soa particularmente inspirado desta vez. Mesmo com o mundo pegando fogo, seu tradicional discurso político não vai muito além do óbvio, como “a democracia está caída de costas”, em The Blackout. Suas letras soam bem mais sinceras quando o cantor transborda seu otimismo e mensagens sobre o poder do amor, como na excelente Love is Bigger Than Anything.

Instrumentalmente, não há como negar que o U2 continua sendo uma das melhores bandas do mundo. O vocal de Bono, guitarra de Edge, baixo de Adam Clayton e a bateria de Larry Mullen soam perfeitas como sempre e, ainda que o conjunto repita consistentemente os seus velhos cacoetes, não há sentido em mexer em time que está ganhando, mesmo que isso faça parte do disco soar derivativo e repetitivo em demasia.

Resta à banda decidir se, no futuro, vai continuar se contentando em parodiar a si mesma, com a maior parte das músicas soando como o U2 fazendo cover de U2, como ocorre em Songs of Experience, ou se ainda é possível encontrar criatividade para ditar os rumos do rock com uma proposta corajosa e inédita, explorando novos gêneros e tendências, como já mostrou ser capaz de fazer em seus principais discos.

Se você estiver confortável com o fato de que o U2 fez um disco majoritariamente mais do mesmo, sem a pretensão de marcar época como fez em maravilhas como The Joshua Tree e Achtung Baby, então vai encontrar aqui ótima diversão e uma boa meia dúzia de faixas bem bacanas para ouvir nos próximos meses.

Related posts

U2 continua político e intenso no clipe de The Blackout

Thomas Schulze

Atual turnê do U2 soma números impressionantes

Thomas Schulze

U2 libera nova faixa e tracklist de Songs of Experience

Thomas Schulze