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O paradoxo de Cloverfield é o paradoxo da internet

O nome do terceiro filme da série Cloverfield não poderia ser mais adequado, especialmente considerando a recepção que o longa teve por boa parte da crítica e público. Tão rápido quanto o filme foi cercado de hype em seu anúncio surpresa no Superbowl, a internet não hesitou em destroçar completamente o longa dirigido por Julius Onah e produzido pela Bad Robot, de JJ Abrams.


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Que fique claro, The Cloverfield Paradox realmente não é um filme para todo mundo. Para começar, embora ele não exija que você tenha assistido a qualquer um dos dois filmes anteriores, é aconselhável que você pelo menos tenha uma vaga ideia do seu teor a fim de apreciar as inevitáveis conexões da trilogia.

Mas, especialmente, é claro e evidente que o gênero escolhido para a produção apela para um nicho específico dentro de outro nicho. Enquanto o primeiro Cloverfield foi um divertido filme de monstro mesclado com found footage, sua sequência 10 Cloverfield Lane ousou ao mudar drasticamente de gênero, e investir a maior parte de sua narrativa em um thriller de horror psicológico bem intimista, filmado majoritariamente em um único e claustrofóbico ambiente.

Chegamos, então, ao primeiro paradoxo claro que cerca a recepção do novo filme: como é possível que as mesmas pessoas que aplaudiram essa ousada e interessantíssima mudança de gênero, agora criticarem o terceiro filme por, mais uma vez, dar um passo improvável e abraçar o terror de sci-fi espacial que faz uma baita homenagem às produções dos anos 1990? Me parece muito ilógico cobrar que a série volte a ser uma franquia focada majoritariamente em um monstro, quando o segundo filme já botou essa ideia para escanteio.

Vamos aproveitar esse gancho e falar um pouco sobre a premissa do filme, evitando ao máximo grandes spoilers, já que eles estragariam um pouco da diversão (mas tem spoilers leves pelo caminho, então pode ser uma boa fechar o texto agora se isso te incomoda): um grupo de astronautas está reunido em uma estação espacial pesquisando formas de tirar a Terra de uma profunda crise de energia, que a deixou à beira de um conflito em escala global. Naturalmente, as coisas não saem como o esperado e logo tudo sai de controle, para horror de seus tripulantes.

O elenco é bastante diverso e conta com vários rostos famosos e alguns talentos novos surpreendentes. O maior destaque fica para a protagonista Ava Hamilton (interpretada com intensidade por Gugu Mbatha-Raw) e o físico Schmidt (o sempre ótimo Daniel Brühl). David Oyelowo, John Ortiz, Chris O’Dowd, Aksel Hennie, Elizabeth Debicki e Zhang Ziyi completam o extremamente competente time do filme.

E são, também, a deixa perfeita para o segundo grande paradoxo da internet: como é possível que o mesmo grupo de pessoas que enche a boca para berrar nas redes sociais clamando por filmes estrelados por minorias e com elencos diversos — chegando ao ponto de premiar bombas como o seriado Luke Cage puramente por ele trazer minorias e temáticas raciais —. cuspir em um filme que se esforça para trazer pessoas de diferentes etnias em papéis dignos e importantes? Não sou partidário da ideia de que um elenco diverso é um fator qualitativo com impacto direto na avaliação de uma obra, mas se você premia e cobra esse tipo de coisa, não faz lá  muito sentido cuspir no trabalho do ótimo diretor nigeriano que comanda The Cloverfield Paradox.

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Aliás, há um terceiro paradoxo bem comum nas outras críticas ao filme: muita gente aproveitou o fato de que o roteiro original de Oren Uziel para God Particle foi comprado e retrabalhado para inserir elementos da franquia Cloverfield. Embora seja verdade que isso aconteceu aqui, sabe que outro filme passou pela mesmíssima situação? Pois é, 10 Cloverfield Lane, que nasceu exatamente da mesma logística: o roteiro The Cellar, de Josh Campbell e Matt Stuecken foi comprado e transformado para acomodar a mitologia da série. Então não tratem isso como uma novidade ou algo digno de críticas, a não ser que já tenham punido isso anteriormente, porque aí sim seria coerente.

Mas vamos sair um pouco da defensiva e elogiar o filme por seus acertos genuínos, além dos aspectos técnicos como as ótimas atuações e direção empolgante. The Cloverfield Paradox tem um ótimo ritmo e edição, de forma que suas pouco mais de uma hora e meia passam voando!

Uma vez que você já esteja à bordo do clima de aventura e terror espacial, há diversas soluções incrivelmente criativas para os apuros em que seus personagens se metem. Como numa boa fita dos anos 90, elas alternam momentos de horror sobrenatural com bastante “tecnobaboseira”, ciente de que tudo que importa é manter o ritmo legal e dar um fim criativo aos personagens. Aí vale tudo, dos perigos do multiverso até gore com minhocas atreladas a explosão de órgãos internos, passando por uma mãozinha consciente digna da Família Addams (!!!)

Aliás, sabia que o filme Life, que basicamente conta com a mesma estrutura de roteiro e filmagem, tem atualmente 67% de aprovação crítica no Rotten Tomatoes, enquanto The Cloverfield Paradox soma pífios 19%? Paradoxal, para dizer o mínimo, já que os dois filmes são muito, muito, MUITO similares entre si, tanto em tom como nos arquétipos que resgatam.

Se você gosta desse tipo de filme, sabe que é sempre divertido ficar se perguntando qual vai ser o próximo personagem a bater as botas, como exatamente eles vão se despedir, e quanto da nave vai pelos ares até o clímax do filme. Mais uma vez, se esse não é o tipo de coisa que apetece o seu paladar, não faz o menor sentido gastar mais de uma hora de sua vida vendo um filme que não tem a menor chance de lhe agradar.

Porque, ainda que não faltem conexões com o universo de Cloverfield, e até respostas a enigmas dos filmes anteriores (já tem até gente rodando os filmes da série lado a lado e encontrando simetrias bem legais!), The Cloverfield Paradox deve ser visto menos como um Cloverfield, e mais como um filme de horror espacial intencionalmente com cara de VHS lançado direto em vídeo nos anos 90.

Mas, como sabemos, o grande paradoxo da internet é que as pessoas podem até ler e postar textões mas, no fim do dia, não estão dispostas a parar para pensar por si mesmas. Do consenso que berrava instaurando um hype monstruoso, até o mesmo consenso cruel que decidiu massacrar automaticamente uma obra, é muito fácil repetir o discurso comum. Difícil mesmo é sentar e apreciar um filme pelo que ele é, aceitando que talvez, só talvez, ele realmente não tenha sido feito para o seu gosto. E que está tudo bem com isso.

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Thomas Schulze

Formado na arte de reclamar, odeia a internet. Ainda assim, sua hipocrisia sem limites o permite administrar a página no Facebook, plataforma de divulgação do seu primeiro livro. Você também pode seguí-lo em @thomshoes no Twitter, mas provavelmente é uma má ideia...

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Thomas Schulze

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