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Cinema Críticas

Crítica: Em defesa de Batman vs Superman: A Origem da Justiça

A espera terminou no dia 24 de março, quando Batman e Superman dividiram, pela primeira vez, os holofotes nas salas de cinema. Com o lançamento de Batman vs Superman: A Origem da Justiça, a DC e a Warner Bros. preparam terreno para a chegada de heróis como Flash, Aquaman e Cyborg, que ao lado dos heróis do título do filme e da princesa amazona conhecida como Mulher-Maravilha formarão, em 2017, a Liga da Justiça cinematográfica.

Antes do lançamento de Batman vs Superman, mesmo com trailers que pareciam entregar demais alguns detalhes da trama, o mais recente longa-metragem da DC conseguiu acumular um hype e tanto. E aí o filme chegou às salas de cinema e vieram as primeiras críticas da mídia especializada. O que elas diziam? Que o filme era uma verdadeira bosta. Uma merda. Um monte de cocô fumegante. Pois é.

Mas, ei, será que o filme era mesmo tão ruim assim?

https://www.youtube.com/watch?v=qSukF1JcD4Y

 

A origem da injustiça

Ainda que em menor quantidade, havia por aí uma ou outra crítica louvando o trabalho de Zack Snyder, Henry Cavill (Superman/Clark Kent) e Ben Affleck (Batman/Bruce Wayne) neste segundo filme do universo expandido da DC nos cinemas, que se passa cerca de dois anos depois dos eventos vistos em O Homem de Aço. Seria o primeiro encontro de dos dois maiores ícones das histórias em quadrinhos tão ruim assim?

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Não, meus amigos e amigas, Batman vs Superman: A Origem da Justiça não é um filme terrível. Nem é um filme ruim, na verdade. Só que, reconheço, também não é um filme perfeito. Os maiores problemas da película são, sem sombra de dúvida, a edição (que joga na sua cara cena após cena, diálogo após diálogo, sem te dar tempo para respirar), a duração (o filme é longo, dura mais de duas horas e meia, tornando-se cansativo), as motivações dos personagens (por que raios Lex Luthor faz o que faz no final do filme, por exemplo?) e suas caracterizações.

“O que a crítica especializada fez com Batman vs Superman foi uma tremenda injustiça”

“Poxa, então o filme é horrível mesmo! Olha o tanto de problemas!” Não, não é. Só não é um show de cenas coloridas com piadas aqui e acolá, como os longas da Marvel. O que a mídia especializada, principalmente a gringa, fez com Batman vs Superman: A Origem da Justiça foi, bem, uma tremenda injustiça. BvS tem problemas sim, negar isso seria como tentar tampar o sol com uma peneira, mas no geral é um filme muito bacana.

Por isso, tendo em mente que não se trata de um longa perfeito (problemático, sim, mas injustiçado), decidi “sair em defesa” de Batman vs Superman e apontar o que acredito ter sido bom o ou ruim nas duas horas e meia de duração do filme.

 

O ruim

Quando falo dos problemas de BvS, por caracterizações não me refiro, por exemplo, ao Lex Luthor agitado e de voz fina de Jesse Eisenberg, ou ao Batman impiedoso e homicida de Ben Affleck, comparados ao empresário frio, calculista e maquiavélico e ao herói com código de honra e maior detetive do mundo, como são vistos respectivamente nos quadrinhos. Mas não é assim que são os personagens nesse universo criado por Snyder e sua trupe; esqueça suas versões clássicas: para a versão cinematográfica dos personagens da DC, precisamos entender e aceitar que, nesse mundo expandido que estão criando agora, esses personagens são assim. Ponto. Bola pra frente.

O Batman de Batman vs Superman é violento e, bem, um tanto homicida
O Batman de Batman vs Superman é violento e, bem, um tanto homicida

 

Decaracterizações

Meu problema quanto a isso é simplesmente o fato de que os heróis não parecem heróis. Superman comete algumas atrocidades, como voar contra alguém, levando-a a atravessar uma parede de concreto; Batman explode carros cheios de capangas e sai atirando por aí, no meio da rua, explodindo tudo em seu caminho — aliás, para alguém tão enraivecido por ver o Superman “destruindo Metrópolis” em O Homem de Aço, esse Batman é bastante hipócrita (vide cena de perseguição com o Batmóvel).

Faltou mostrar o lado mais compenetrado do Homem Morcego, aquele lado que fez com que nos apaixonássemos por suas histórias detetivescas. Faltou dar ao Morcego uma motivação melhor do que aquele potencial “1% de certeza” de que o Superman poderia, em algum momento, se voltar contra a humanidade.

Superman ainda sofre com a falta de humanidade em Batman vs Superman
Superman ainda sofre com a falta de humanidade em Batman vs Superman

Falando em humanidade, faltou mostrar o lado humano do Azulão. E não, não estou falando de Clark Kent, seu alter ego, estou me referindo ao espírito de salvador da humanidade, de alienígena mais humano que muita gente por aí. Faltou mostrar nas telonas aquele Superman que todos crescemos amando, aquele cheio de compaixão. BvS até tentou fazer algo assim na cena do Senado, mas falhou.

“O ator ainda parece ter problemas para representar o lado mais humano do alien de colant azul”

Henry Cavill tem todo o porte do Superman, ele realmente consegue vender a ideia de que é o Azulão; quando o vi pela primeira vez paramentado como o herói, em O Homem de Aço, acreditei novamente que um homem podia mesmo voar. Mas aqui, em Batman vs Superman, o ator ainda parece ter problemas para representar o lado mais humano do alien de colant azul. Ainda falta vida à sua interpretação de Clark Kent/Superman.

 

Roteiro

O roteiro também não ajuda. Superman não parece realmente querer estar por aí salvando o mundo, e o díalogo com Martha Kent (Diane Lane) só ajuda a deixar tudo ainda mais estranho: “você não deve nada a ninguém.” Como assim você diz isso para o maior herói do planeta, mamãe Kent?!

Batman também parece nem saber mais por que ainda sai por aí “defendendo as ruas de Gotham”. Independentemente da “ameaça” que o Superman representa para o Morcego, Bruce já está frustrado com uma Gotham em que “bandidos crescem como ervas daninhas”, uma cidade que se recusa a ficar “do jeito dele”, que é um bilionário que acha que… nem sei se ele acha que pode fazer justiça com as próprias mãos, a essa altura, a impressão que fica é a de que ele só gosta de espancar e mutilar pessoas pra descontar a frustração.

Mas o principal ponto é que o roteiro, por vezes, não parece ser o mesmo: de uma cena para outra, a impressão que fica é a de que são dois filmes completamente distintos correndo em paralelo. Isso se dá, provavelmente, por conta dos estilos do diretor Zack Snyder (O Homem de Aço) e do roteirista Chris Terrio (Argo). É totalmente perceptível quando o longa pende mais para o lado de um ou de outro, e isso atrapalha o filme como um todo. Quando uma interessante trama política e profunda, com paralelos com religião e crenças, sai de cena para dar lugar a ação desenfreada, close-ups, câmera lenta e dezenas de explosões, fica claro que nessa brincadeira todo mundo sai perdendo.

 

Edição

Ainda assim, dentre todos os problemas apresentados na película, o que mais me incomodou foi o ritmo frenético da edição. Em um dado momento, a impressão que se tem é a de que o responsável pela edição engatou a quinta marcha e não desacelerou mais. Acompanhar a história e não perder nenhum detalhe, nenhuma informação, se tornou uma tarefa um tanto complicada — ainda mais se considerarmos que são mais de duas horas e meia de correria.

Essa correria toda já é complicada pra quem entende alguma coisa de quadrinhos, e a coisa piora ainda mais pro público casual, que pode ficar completamente perdido com todas as referências e setups descarados pros próximos filmes da DC. A edição com cortes rápidos deixa clara a intenção da Warner de tentar cobrir praticamente só com esse filme o que a Marvel demorou anos para desenvolver. Batman vs Superman parece ter sofrido com esse processo de “injetar” coisas que vão servir mais pra frente. Teria sido um ótimo filme se tivéssemos tido mais tempo para explorar os personagens, ou se fosse só um filme do Batman ou só do Superman.

 

O bom

Mas o filme passa longe de ser o demônio voador disparando bosta flamejante na cara do espectador que estão pintando por aí. Longe mesmo.

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A primeira hora de Batman vs Superman me deixou maravilhado. Não conseguia tirar da minha cabeça que o filme estava quase perfeito (exceto por uma ou outra atrocidade, como o já citado Superman atravessando uma parede com um cara). A história estava caminhando bem, mostrando Bruce Wayne correndo para Metrópolis durante a luta entre Superman e Zod, que culminou na destruição de alguns quarteirões da cidade, incluindo um prédio das empresas Wayne, matando vários funcionários do Patrão Bruce. Ver o desenrolar da luta entre os kryptonianos pelos olhos da população foi sensacional.

“A primeira hora de Batman vs Superman me deixou maravilhado”

Conhecer o novo Batman, ver como ele atua impiedosamente (no melhor estilo Arkham Knight) contra aqueles que contaminam sua cidade e seu ódio crescente pela ameaça alienígena foi uma experiência e tanto. A cena que mostra Clark e Bruce interagindo pela primeira vez, mesmo já estando no trailer, foi impactante. O diálogo cheio de indiretas e acusações, com cada um mascaradamente defendendo os próprios ideais, mostrava que o filme seria muito mais do que apenas pancadaria entre heróis, que Batman vs Superman: A Origem da Justiça seria um filme com conteúdo.

 

Grandes personagens

Dois anos após os acontecimentos de O Homem de Aço, Clark e Lois Lane (Amy Adams) agora tentam manter uma vida o mais normal possível. Lois é a repórter investigativa mais intrometida do Planeta Diário, Clark está fissurado nas atividades do Morcego de Gotham. Um casal “normal”, na medida do possível.

Lois e Clark economizam água dividindo a banheira em Batman vs Superman
Lois e Clark economizam água dividindo a banheira em Batman vs Superman

Fomos apresentados a uma versão do Batman que está aí, na ativa, há anos. Mais velho e experiente, o Morcego de Affleck vive atormentado por fantasmas do passado, seja aparentemente se sentir responsável pela suposta morte do Robin ou por não ser capaz de salvar sua cidade dos criminosos (ou até mesmo o mundo, agora ameaçado por alienígenas voando com capas vermelhas). E funcionou. Antes rechaçado pela internet, Ben Affleck mostrou que foi uma escolha acertada ao interpretar não apenas um Batman brutal, mas também um Bruce Wayne crível. Affleck conseguiu convencer como Bruce e Batman, coisa que poucos foram capazes até hoje.

“Ben Affleck mostrou que foi uma escolha acertada”

O Alfred Pennyworth de Jeremy Irons também surpreende. O renomado ator britânico conseguiu dar ao mordomo de Bruce muito mais vida e relevância. Alfred não é responsável apenas por servir chá e oferecer conselhos, em BvS o personagem é uma engrenagem importante para a máquina de guerra conhecida como Batman. À distância, Alfred participa das investidas do Morcego pilotando a nave do herói e servindo como o “Oráculo”, sugerindo estratégias e oferecendo suporte remoto.

Gal Gadot surpreendeu como a Mulher Maravilha em Batman vs Superman
Gal Gadot surpreendeu como a Mulher-Maravilha

Outra que sofreu nas mãos dos internautas foi Gal Gadot, apontada como “magra demais” e “sem porte” quando anunciada como a Mulher-Maravilha/Diana Prince dos cinemas. E, bem, quando a personagem apareceu pela primeira vez usando o uniforme da princesa amazona, não tinha como ser diferente: o público foi à loucura. Há quem diga que a Mulher-Maravilha roubou a cena, ou até mesmo que “salvou o filme”, embora eu ache um tremendo exagero. Mas posso concordar, sim, que a personagem foi uma ótima adição e sua participação foi extremamente empolgante.

“Há quem diga que a Mulher-Maravilha roubou a cena”

Agora, alguém que me surpreendeu (e muito foi) o Flash de Ezra Miller. Fã declarado da série The Flash, do canal The CW, não fiquei muito feliz quando anunciaram que Miller seria o Flash dos cinemas. Eu queria Grant Gustin, o Barry Allen da TV, no papel. Eu queria um universo DC interligado nas telinhas e nas telonas. Eu não queria Ezra Miller no papel, e não acreditava em seu potencial como o mais famoso velocistas das HQs. Que bom que eu estava enganado. Ainda que aparecendo apenas brevemente, a participação de Miller no filme foi suficiente para me empolgar e, finalmente, aceitar que pode vir coisa boa por aí.

 

Visual

Não é nenhuma surpresa que um filme de Zack Snyder seja bonito. O diretor é conhecido por acertar quando o assunto é fazer cenas impactantes, belas e grandiosas. Em BvS não é diferente: Snyder caprichou na hora de colocar os maiores heróis do mundo lado a lado.

Batman vs Superman reuniu a Trindade com sucesso nos cinemas, e não apenas visualmente falando
Batman vs Superman reuniu a Trindade com sucesso nos cinemas, e não apenas visualmente falando

A começar pela cena de abertura, estrelada pela família Wayne. Que cena maravilhosa, bem filmada e emocionante. Por mais que seja uma história que todos já conhecemos e vimos incontáveis vezes nos cinemas, na TV e nas HQs, rever o assassinato de Thomas (Jeffrey Dean Morgan) e Martha Wayne (Lauren Cohan) refilmado como uma grande homenagem à graphic novel O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller foi incrível.

O longa é mesmo bonito do início ao fim, e o tom “cinzento” de O Homem de Aço parece menos presente em Batman vs Superman: A Origem da Justiça. O longa ainda conta com o “filtro Snyder” que quase extermina toda e qualquer cor que entre em seu caminho, mas de forma menos acentuada — talvez para dar maior contraste a dia e noite, claro e escuro, Superman e Batman. De qualquer forma, funcionou muito bem na hora de expressar a noite mais escura dos personagens antes do amanhecer.

 

Acertos

Falar dos principais acertos do longa sem citar acontecimentos do filme é um tanto complicado, ainda mais na hora de tentar justificar algumas escolhas de direção e roteiro. Se você ainda não assistiu ao filme e não quer estragar nenhuma surpresa, atente para o aviso de spoilers!

<< ALERTA DE SPOILERS!! >>

 

Martha

Motivo de piada na web, a cena final da batalha entre Superman e Batman deu o que falar. Diferente do que muitos pensavam, para a alegria dos fãs do Morcego, Batman saiu vitorioso e estava prestes a matar o Superman com uma lança de kryptonita quando, de súbito, o Azulão (quase desacordado) pede a Bruce que “salve a Martha”. Confuso, Batman não sabia o que fazer. Foi então que Lois interveio e explicou que Martha era a mãe de Clark, e assim o Morcegão desistiu de acabar com a vida do kryptoniano.

Naquele momento, as opiniões se dividiram. Para muita gente, a solução do embate foi estúpida. Memes do tipo “ei, sua mãe se chama Martha! Agora somos melhores amigos para sempre” brotaram em todo canto da internet, e essa cena em especial parece ter sido um balde de água fria em boa parte dos espectadores. Como assim a luta poderia acabar, o sangue do Batman parar de ferver, apenas com a menção de um nome? Ridículo.

Já para outros (e aqui, eu, Rodrigo, me incluo), a cena foi genial. Leio quadrinhos desde criança, ainda que pendesse muito mais para o lado da Marvel do que para o da DC. Talvez por isso eu jamais tenha reparado na coincidência dos nomes das mães dos personagens. De qualquer forma, analisando o desenrolar da história e o que o filme nos passou sobre cada personagem até ali, a reação do Batman foi sensacional. Eternamente ferido emocionalmente por não ter sido capaz de salvar seus pais, Bruce Wayne cresceu um adulto complicado. Vestido de Morcego, o cara saía por aí socando bandidos para manter Gotham mais segura. Ao lado de Robin, seu fiel ajudante, Bruce conseguiu se manter do lado dos “caras bonzinhos” por um bom tempo.

Martha, Thomas e Bruce Wayne (e não, não é uma cena de The Walking Dead)
Martha, Thomas e Bruce Wayne (e não, não é uma cena de The Walking Dead)

Pelo menos até a queda de seu companheiro. Depois da suposta morte de Robin, Bruce passa a pender mais para o lado criminoso (o que fica evidenciado em seu diálogo com Alfred). Ele já não se importa mais em ser um completo fora da lei se isso, de alguma forma, trouxer mais segurança para sua cidade. Ao ver Superman combater Zod e, no processo, destruir alguns quarteirões de Metropolis (incluindo um dos prédios da Wayne Financial), Bruce decidiu que o kryptoniano de capa vermelha era uma ameaça para humanidade e precisava ser exterminado. Porém, quando finalmente teve a oportunidade de matar Superman, o Morcego fica sem reação ao ouvir o nome “Martha”. Aquilo mexeu com ele de uma forma que nem ele imaginava ser possível. Num mix de ódio (como aquele alienígena se atrevia a falar o nome de Martha Wayne?) e confusão (será que o Superman sabia, então, que Bruce Wayne era o Batman?), Bruce por fim decide acabar com Superman quando Lois Lane, a “chave”, interfere e explica que Martha é, na verdade, a mãe de Clark: Martha Kent.

“Wow. Como assim ‘mãe’ dele? ‘Mãe’ do alienígena? Não, pera, se ele tem mãe… seria ele menos alien e mais humano do que eu pensava? Eu estava errado o tempo todo? Ele desistiu mesmo de se defender na esperança de que eu ao menos salvasse sua mãe? Seria possível um alien um ato de nobreza como esse, digno de um ser humano?” Dá pra imaginar tudo isso passando pela cabeça de Bruce naquela cena. E é por isso que ela funciona, é por isso que ela é genial. Bruce percebe, naquele momento, que todo o ódio que sentia o cegava. Percebeu que por acreditar fortemente que era a única pessoa a ver a verdadeira face do kryptoniano, por cruzar a linha cinza e passar a atuar no “lado sombrio” do heroísmo, por deixar de ser um nobre herói para se tornar um anti-herói, acabou não percebendo que, na verdade, Superman salvou não apenas Metropolis, mas também o mundo. Superman não era uma ameaça, era um aliado. E alguém tramou para que ambos se enfrentassem e somente um saísse dali vivo.

Martha Kent ainda significa o mundo para Clark/Superman
Martha Kent ainda significa o mundo para Clark/Superman

Por isso, para mim, toda a sequência da batalha entre os dois heróis e a forma como ela foi encerrada foi simplesmente genial.

 

Senado

Outra cena incrível foi a do Senado, quando Superman é chamado para depor. Embora o lance com o cara na cadeira de rodas tenha parecido meio forçado, a ideia em si foi bem executada e a tensão da Senadora quando vê o potinho de “chá” em cima de sua mesa, a forma como ele perde as palavras e a linha de raciocínio enquanto procura Lex na multidão foi maravilhosa. Holly Hunter estava de parabéns no papel da Senadora Finch, enquanto o Lex de Eisenberg se mostrou não só um vilão estrategista, mas um com senso de humor — ainda que doentio (quem duvida que o conteúdo do pote não era mesmo xixi?).

 

Destruição contida

Depois de uma imensa parte do público acreditar que Superman destruiu toda a cidade de Metropolis em O Homem de Aço, a DC e a Warner resolveram aproveitar a confusão e usá-la a seu favor. É preciso lembrar, é claro, que “apenas” alguns quarteirões da cidade foram dizimados na batalha do herói com Zod no filme anterior (área esta que foi transformada na praça com a estátua em BvS), e essa destruição se deu muito mais por causa do ataque dos vilões kryptonianos e suas máquinas de terraformação do que por qualquer outra coisa. Enfim, de qualquer forma foi uma destruição e tanto.

Em Batman vs Superman, o herói da capa vermelha é acusado publicamente de ser o responsável pela confusão e pela morte de muita gente, em um metacomentário à reação do público aos eventos do final do filme anterior. Por isso, nesta sequência, a produção pareceu extremamente preocupada em deixar o público ciente de que as batalhas destrutivas estão rolando em locais abandonados e que, quando inevitavelmente rolam na cidade, as autoridades já trataram de evacuar a população.

E isso é outro ponto levantado em tantos reviews por aí. Ainda tem muito veículo dizendo que Snyder e cia. nada aprenderam com os “erros” de O Homem de Aço, e que a destruição excessiva está toda de volta. Mas é precipitado fazer tal afirmação, já que o filme faz questão de afirmar e reafirmar que as lutas rolam em áreas não povoadas ou já evacuadas. E seria simplesmente impossível controlar uma criatura como o Apocalypse, por exemplo, levando-a para longe da população. Tudo o que os heróis podem fazer é tentar conter o monstro, e nesse processo manter os danos contidos na medida do possível. E eles fazem isso.

 

Lex Luthor

Pode até parecer que este ponto está no lugar errado, mas não está. Sim, o Lex de Eisenberg tem potencial para ser um vilão complexo. Suas motivações vão além do que é esfregado na cara do espectador: Luthor não é um “malvado do mal”; o jovem vilão tem complexo de deus, aparentemente desenvolvido por conta de sua imensa riqueza e como mecanismo de defesa contra os abusos sofridos nas mãos do falecido pai. Quando surge Superman, um “verdadeiro deus na Terra”, Lex sente como se seu “livre arbítrio” fosse ameaçado, e isso o leva a genuinamente, em algum nível, se preocupar com o poder do herói perante a humanidade.

Lex Luthor em Batman vs Superman
Lex Zuckerberg. Não, Jesse Luthor. Ou seria Mark Eisenberg? Não, pera.

É Luthor quem faz as engrenagens da trama se movimentarem, mas o personagem, graças a seus trejeitos e visual “Zuckerberg”, acaba destoando do resto do filme e nos levando a temê-lo cada vez menos como vilão manipulador e de altíssima periculosidade. Não fica claro se Lex Luthor realmente tem esse jeitão “A Rede Social” de ser ou se essa é apenas uma faceta do personagem usada para esconder sua real natureza, e isso prejudica o resultado final.

Sua redenção veio somente no final, após ser preso, quando Eisenberg tem sucesso em expor um lado assustador do personagem. Com sorte teremos mais desse Lex amedrontador e menos geração start-up nos próximos filmes.

<< FIM DOS SPOILERS >>

 

Foram tantos (e tão bons) os acertos que até quem reclamou do filme parece ter se animado pra ver os próximos lançamentos da DC.

 

Que venha a Liga da Justiça

A impressão que o começo de BvS passou foi a de que teríamos, finalmente, um filme de heróis sério, que tentava emular uma realidade na qual personagens fantásticos como Superman, Batman e Mulher-Maravilha são parte do cotidiano, um mundo no qual alienígenas tentam destruir a raça humana. E, de certa forma, o longa conseguiu.

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Embora a adição de participações especiais de outros heróis tenha sido incluída para reforçar a ideia da criação iminente da Liga da Justiça nos cinemas e nos mostrar rapidamente como seriam seus visuais, por melhor que tenha sido a intenção, a forma como isso foi feito incomodou por parecer uma inclusão de última hora. Exceto pela participação da Mulher-Maravilha e do Flash, as demais não realmente não funcionaram como o planejado. De qualquer forma, saber que em breve veremos a princesa amazona e o velocista escarlate, além de Aquaman e Cyborg estrelando novos filmes da DC no futuro, e que essa turma vai se juntar a Superman e Batman para compor a Liga da Justiça, já é o suficiente para nos deixar na expectativa. Isso porque nem entramos no mérito de Esquadrão Suicida, que vai contar com a participação do Batman, e faz parte deste universo cinematográfico expandido da DC.

DC e Warner preparam terreno para o filme da Liga da Justiça
DC e Warner preparam terreno para o filme da Liga da Justiça

A forma como a DC e a Warner vêm conduzindo seus filmes no universo expandido da editora de histórias em quadrinhos nos cinemas pode funcionar, só é preciso acertar no tom. O plano era se distanciar da “galhofa organizada” da Marvel, que descobriu uma fórmula que funciona (e muito bem!) para seus filmes, e nisso a DC se saiu muito bem: Batman vs Superman é um longa que, mais do que entreter, te faz refletir sobre o que está sendo exposto na tela. Os temas abordados, como segurança pública, política e religião, por exemplo, são muito mais profundos do que aparentam.

“Batman vs Superman é um longa que te faz refletir sobre o que está sendo exposto na tela”

Personagens como Luthor, por exemplo, encontram motivação para suas ações em assuntos como esse, e seu ódio por Deus, sua visão de bem e mal, o levam a projetar suas crenças na figura do Superman, praticamente um deus entre humanos. De qualquer forma, esse cenário pode mudar, visto que as conversas de bastidores levam a crer que a abordagem dos próximos filmes pode mudar para algo mais leve e um pouco mais próximo da “fórmula Marvel”.

No final das contas, Batman vs Superman: A Origem da Justiça tentou ser mais do que conseguiria, e por isso sofreu as consequências. Para ter sucesso, o filme precisaria de mais tempo de tela ou até mesmo ser dividido em duas partes, a exemplo do último Harry Potter, tendo assim condições de funcionar como aparentemente a equipe de produção gostaria de fazer.

O longa-metragem não é péssimo, não chega nem a ser ruim. Um filme com personagens do calibre de Superman, Batman e Mulher-Maravilha deveria ser perfeito, era isso o que os fãs esperavam. Não foi isso o que ganhamos, mas o resultado ainda assim foi muito satisfatório. De qualquer forma, Batman vs Superman é um bom filme e cumpre bem o seu papel de efetivamente dar o pontapé inicial, de maneira grandiosa, à formação da liga da Justiça.

 

Batman vs Superman: A Origem da Justiça – Nota: 3,5/5

 

Colaborou: Paula Travancas

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