Sonic, um ouriço criado sob medida

Ter um símbolo para representar um conceito ou uma instituição nunca foi uma tarefa fácil. Mas para a Sega dos anos 80, essa era uma das tarefas mais complicadas, alarmantes e, de certa forma, desesperadoras, graças a uma pressão externa vinda de um tal Reino do Cogumelo. A gigante Nintendo tomava quase todo o mercado global de videogames com o seu NES e nem mesmo o último lançamento da Sega, o Mega Drive (ou Genesis, nos EUA), era capaz de vencê-la.[1]


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Esse monstruoso sucesso, entretanto, tinha nome, chapéu vermelho e bigode: Mario era a figura mais poderosa dos jogos na época. O NES estava presente em uma a cada quatro casas nos Estados Unidos e ninguém tinha chegado nem perto de conquistar o seu reinado.[2] Antes de vencer a Nintendo, era preciso que a Sega personificasse a sua parte na batalha, uma figura para conquistar o coração (e o bolso) dos jogadores. A Sega precisava de um mascote à altura de Mario.

Opa-Opa e Alex Kidd, em suas versões modernas da série Sega All-Stars

Não é como se a Sega já não tivesse alguns mascotes. Opa-Opa, protagonista da série Fantasy Zone, e Alex Kidd, com o relativo sucesso de seus jogos no Master System, já tinham ocupado esse posto, mas nem eles tinham conseguido alavancar o mercado da Sega. Hayao Nakayama, presidente da empresa na época, tinha uma proposta interessante para resolver esse problema: convocou todas os times de pesquisa e desenvolvimento da Sega pelo mundo para fazer um novo mascote e um novo jogo, capazes de fortalecer as vendas do Mega Drive. O personagem deveria ser facilmente reconhecível, ser o mais diferente possível de Mario, não ser fofo e ser diferente do que eles já conheciam, assim como o seu jogo de estréia.[3]

O nascimento de Sonic, o mascote

Entre todos os que colocaram suas ideias à prova para um novo mascote da Sega, estava o designer Naoto Ohshima, que já havia trabalhado na série Phantasy Star, com vários desenhos e conceitos, incluindo a ideia de um coelho com orelhas grandes para pegar e atirar ítens nos inimigos. Para trabalhar no projeto, Ohshima se uniu ao programador Yuji Naka ― que já havia trabalhado em Spy vs. Spy, Ghosts ‘n Goblins e também na série Phantasy Star.[3]

Naka era um amante da velocidade e gostava da ideia de “criar um jogo no qual, quanto maior a habilidade do jogador, mais rápido ele poderia terminar um nível”.[1] Há alguns anos, ele tinha imaginado um conceito de um personagem que poderia se tornar uma bola e se jogar nos inimigos, mas isso não se encaixava no coelho de Naoto. Ele precisava de “algo mais rápido”. Olhando para os outros rascunhos de Ohshima, ambos concordaram que um ouriço seria a melhor opção. Esse é o começo da criação de Sonic.[3]

Apresento Mr. Needlemouse… É, realmente, o nome não ia pegar

A sua cor azul remetia ao logotipo da Sega e, nos estágios iniciais, era conhecido pelo inocente nome de Mr. Needlemouse. As icônicas botas vermelhas do personagem vieram depois, inspiradas pelo Rei do Pop, Michael Jackson (mais especificamente, pelos sapatos pretos que usava na capa do álbum Bad, de 1987) e pela icônica cor vermelha do Papai Noel. Sua atitude “americanizada” era inspirada em Bill Clinton, governador do Arcansas na época. Um personagem remodelado precisava de um novo nome, pelo qual iria ser realmente conhecido: Sonic the Hedgehog.[2]


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Com o sinal verde da divisão japonesa da Sega, Ohshima, Naka e outros funcionários da empresa (que formariam o famoso Sonic Team) começaram a pensar em como seria o mundo em que o novo mascote viveria. Sonic, até então, era o vocalista de uma banda de rock, composta toda por animais. O rock star azul ainda tinha uma namorada humana, uma loira atraente chamada Madonna. Segundo Ohshima, “Sonic tinha menos da metade da altura dela e, mesmo assim, ela corria atrás dele. Era como uma fantasia”.[2]

Será que foi dessa ideia que o Júlio começou a pensar no seu “rock rural”?

Mesmo com todas as influências americanas, Sonic não foi bem recebido na divisão estadunidense da empresa, a Sega of America. Segundo eles, o personagem precisava ser totalmente reformulado para se adaptar ao mercado ocidental. Tom Kalinske, que tinha acabado de sair da Mattel para entrar na Sega, deu a missão de recriar Sonic, de sua história até o seu design, para Madeline Schroeder, gerente de produto da Sega of America[1], conhecida até hoje como a “mãe de Sonic”.[2]

Toda a história sobre a banda de animais e Madonna foram removidos do universo do ouriço pelos americanos, além de várias mudanças no design do personagem em si. A nova versão do mascote foi odiada pelos japoneses do Sonic Team e a própria Madeline teve de ir ao Japão para negociar como Sonic seria, de forma definitiva. Mesmo em meio a diferenças culturais entre os dois lados do mundo, nasceu o ouriço mais amado do globo. Sonic the Hedgehog estava pronto para lutar contra Mario no mercado de videogames.[2]

A história de Sonic

Entretanto, a história por trás do personagem e de seu universo ainda estava em discussão, pelo menos no Ocidente. Durante certa parte do desenvolvimento do jogo, a Sega of America não tinha entrado muito em contato com todo o universo criado pelo Sonic Team e decidiu estabelecer como seria a história de Sonic fora das terras nipônicas em um documento interno da empresa, o Sonic the Hedgehog Bible, com a sua primeira revisão escrita em 1991.

Essa primeira versão se resumia a contar as origens do personagem, que nasceu como um ouriço comum (e marrom) chamado Sonny, no planeta Terra, já durante o século XXI, onde vivia com sua mãe e suas cinco irmãs. Com personalidade forte, ele sempre adorou correr e treinava todos os dias, mesmo depois quando todos tivessem ido dormir. Durante um rigoroso inverno, ele decidiu não hibernar e usar esse tempo para treinar mais ainda, mas acabou seguindo seu instinto e adormecendo na floresta.

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Sonny só acordou com o barulho das máquinas do Dr. Ovi Kintobor, um cientista que conseguira transformar todos os males do mundo em poderosas esmeraldas (que viriam a ser conhecidas como as Esmeraldas do Caos). O ouriço tornou-se grande amigo e ajudante de Kintobor que, ao tentar ajudá-lo a aumentar a velocidade de sua corrida, fez Sonny alcançar a velocidade do som e, assim, sendo afetado pelo “efeito cobalto”, deixando o seu corpo completamente azul.

…efeito cobalto? Sério?

O cientista já havia coletado todas as esmeraldas de que precisava para “livrar o mundo da maldade”, mas ainda faltava uma, a Gray Emerald, para colocá-las em equilíbrio. Durante a caça pela pedra, uma estranha radiação penetrou a atmosfera terrestre, causando uma reação entre Kintobor, as esmeraldas e um ovo. O amigável cientista tinha se transformado no terrível Dr. Ivo Robotnik, que agora queria dominar o planeta com o poder das pedras preciosas.[4]


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Boa parte dessa história foi deixada de lado em revisões posteriores do documento, que situavam o planeta natal de Sonic não mais como a Terra, mas como o conhecido planeta Mobius.[5][6] Entretanto, toda a história sobre a coloração de Sonic e o acidente que criou a maldade de Robotnik continuaram. Essa versão da origem de Sonic foi usada apenas em uma história em quadrinhos promocional, feita para o lançamento do jogo nos EUA, e em várias propagandas europeias.[7] Os manuais do jogo, por sua vez, ignoraram tudo isso, colocando Robotnik como um vilão desde sempre e, Sonic, o herói azul de sempre.

23 de junho de 1991 foi o dia em que Sonic finalmente fez a sua estréia, no lançamento de seu jogo nos Estados Unidos. Nos meses seguintes, a publicidade provocadora da Sega em relação ao recém-chegado Super Nintendo levaria o ouriço a uma popularidade nunca antes vista pela empresa. Depois que Sonic the Hedgehog começou a vir junto com o próprio Mega Drive, nada poderia pará-lo. Mario finalmente tinha um concorrente à altura e uma verdadeira guerra estava para começar. Definitivamente, a arma secreta da Sega não poderia ter vindo tão rápido para a batalha.


[1]  History of Sonic: Birth of an Icon, Anthony Caulfield e Nicola Caulfield, 2011, documentário. Lançado originalmente na Collector’s Edition de Sonic Generations. Disponível no YouTube (em inglês).

[2]  Sonic: A Very Quick History, GameTap, 2009, documentário. Disponível no YouTube (em inglês).

[3]  Service Games: The Rise and Fall of SEGA: Enhanced Edition, Sam Pettus, 2013, livro.

[4]  Sonic The Hedgehog Bible (early version), Sega of America, 1991, documento interno. Disponível no fórum Sonic Retro (em inglês).

[5]  Sonic The Hedgehog Bible (draft 1), Sega of America, 1991, documento interno. Disponível no fórum Sonic Retro (em inglês).

[6]  Sonic The Hedgehog Bible (draft 2), Sega of America, 1991, documento interno. Disponível no fórum Sonic Retro (em inglês).

[7]  Sonic the Hedgehog, Francis Mao, 1991, história em quadrinhos. Lançado como promoção do primeiro jogo da série. Páginas escaneadas disponíveis no site Sonic Retro.

Gabriel Toschi

Cientista da computação em formação pela USP São Carlos, sempre encontra tempo para falar sobre jogos, tecnologia, viagens no tempo e outras loucuras. Desenvolve jogos, aprecia chocotones, escreve sobre ciência no Deviante e fala sobre pérolas desconhecidas dos games na coluna Free to Play, aqui no PlayReplay.

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