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Críticas Música

Coldplay passeia por todas as cores e tons em seu Kaleidoscope EP

Tal qual o caleidoscópio que dá nome ao EP, a banda Coldplay já enxergou o mundo pelas mais diversas cores. Dos tons nublados e cinzentos de seus primeiros trabalhos, até o arco íris de alegria presente nas obras mais recentes da megabanda, os músicos britânicos já provaram dominar tanto o Pop-rock como as baladas melosas, até flertando aqui e ali com rap e música eletrônica, essas com resultados mais instáveis.

Seu último trabalho parece uma pequena viagem pelo currículo do grupo, com tudo de bom e ruim que isso pressupõe. Por pouco menos de 25 minutos podemos ouvir um conjunto que parece estar em paz com seu legado, explorando alguns de seus truques mais tradicionais, ao mesmo tempo em que não se envergonha de levá-los ao limite a fim de explorar novos horizontes.

All I Can Think About is You abre o EP da melhor forma possível. Calma e introspectiva, a balada parece um meio termo entre as melhores fases do grupo. Ao se distanciar da superprodução tão onipresente nos últimos trabalhos da banda, a canção dá espaço para o baixo de Guy Berryman e a discreta e pontual bateria de Will Champion conduzirem o vocal adocicado de Chris Martin, no melhor estilo das músicas mais lentas de Parachutes e Ghost Stories.

É apenas no terço final da canção que somos puxados até outros grandes trabalhos da banda: o apoteótico clímax permite que Johnny Buckland solte a sua guitarra distorcida no momento exato para dar aquela intensidade esperta. Ainda que a banda tenha aperfeiçoado esse padrão de composição em A Rush of Blood to the Head e X&Y, é sempre bom ser lembrado de que esse truque ainda funciona muito bem, obrigado.

Após um começo praticamente perfeito, o EP desce um pouco de nível com a balada Miracles: Someone Special, que conta com o rap de Big Sean em seu ato final. Nada além de correta, ela passa uma mensagem fofa de autoestima e superação, e seu clipe aproveitou para passar uma relevante mensagem pró imigração.

Apesar de sua melodia sob medida para embalar as rádios de todo o mundo, a música nunca vai além de uma tentativa pobre de soar como os melhores momentos de um U2 da vida. As melhores baladas do Coldplay soam bem mais autênticas, como as clássicas Trouble, Fix You e Green Eyes.

Se a temática pró-imigração do EP já não estava clara o suficiente no clipe anterior, A L I E N S, grafada assim mesmo, cheia de espaços, é um ato tão sutil quanto pintar o símbolo de Make Trade Fair nas mãos e piano:

Única faixa em todo o álbum que conta com a produção de Brian Eno, presente nos trabalhos da banda desde Viva la Vida, ela também decepciona e é um tanto confusa. Falta punch, falta melodia, falta identidade. Ainda que de boa mensagem, a letra chega a dar vergonha quando Martin interpreta a voz de um ET para discursar “diga ao seu líder, senhor ou senhora, viemos em paz, não queremos fazer mal. Há alguém lá fora no desconhecido, todos os ETs estão ligando para casa”.

Mesmo com todas essas ressalvas, o ponto mais fraco do disco é, com toda a certeza e com muita folga, a infame parceria gravada com os Chainsmokers. A mistura de Coldplay com música eletrônica parece uma união certeira para embalar as férias de playboys e patricinhas em Ibiza, mas não soa particularmente agradável para os ouvidos de um fã das antigas.

Curiosamente, o EP conta com uma versão inédita da música, a Tokyo Remix. Em toda justiça, ela soa um pouco melhor que a original, já que destaca um pouco mais os elementos Coldplay no começo da música e, dali em diante, ganha em energia ao deixar os vocais da plateia fazendo coro com Chris Martin.

Encerrada a barriga do disco, Kaleidoscope finalmente volta a provar o seu valor com a linda Hypnotised. Cada passo descuidado das faixas anteriores é imediatamente esquecida assim que o (com o perdão do trocadilho) hipnotizante piano de Chris Martin começa a tocar.

Por quase seis minutos podemos ouvir um conjunto em sua melhor forma. É difícil pensar em alguma banda que, em toda a história, tenha produzido músicas calmas e relaxantes tão bem quanto o Coldplay. O próprio Chris soa muito mais honesto ao falar sobre relacionamentos e suas emoções do que em discursos políticos, ainda que de visão acertada e bem intencionada.

“Caio como a chuva, lavando a dor de novo e de novo. Estou hipnotizado e tropeço quando olho em seus olhos” é o típico romantismo piegas, exposto e incrivelmente funcional que Chris Martin escreve tão bem! Não é exagero dizer que Hypnotised soa como uma versão mais madura e melhor produzida de grandes canções como We Never Change e Sparks.

Fica a torcida para que possamos ver ainda mais canções assim nos trabalhos futuros da banda, pois se Kaleidoscope prova algo é que, quando o Coldplay se propõe a fazer o que sabe fazer de melhor, poucas bandas no mundo chegam à altura.

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