Image default
Críticas Música

Coldplay joga em casa no Maracanã e marca um golaço

O primeiro show do Coldplay no Brasil, lá em 2003, divulgando a turnê A Rush of Blood to the Head, foi tocado para um pequeno público de aproximadamente 5 mil fãs. Um grupo seleto que curtiu o som de Chris Martin e sua trupe antes de suas baladas conduzidas por violão e piano influenciarem centenas de bandas por todo o planeta.

De lá para cá, o Brasil se tornou quase uma parada obrigatória nas turnês do Coldplay. Em suas cinco passagens por aqui, ainda tivemos pocket show, um desfile de hits na Apoteose e até a conquista do posto de atração principal do Rock in Rio. A cada passo o público da banda aumentava um pouco mais, culminando na incrível marca de 66 mil pagantes em um Maracanã praticamente lotado (“agradeça” aos cambistas pelos espaços vazios na arquibancada) na noite de 10 de abril de 2016.

IMG_20160410_212826813

Se o Coldplay de 2003 era formado por um grupo de jovens adultos tímidos e desajustados, aqueles CDFs que nunca ficam com a garota e ainda sofrem bullying dos fortões da turma, em 2016 o Coldplay é uma banda muito desinibida e confiante, os meninos mais populares da cidade. O único bullying que restou, então, foi o da crítica especializada, que costuma torcer o nariz para aqueles que triunfam e abraçam o mainstream.

Desnecessário. Mesmo abraçando o lado pop da força desde o disco Viva La Vida, o Coldplay permanece como uma das bandas mais honestas e talentosas que você encontrará sobre um palco em todo o planeta. Aquele tipo raro de honestidade que transparece tanto na qualidade elevada das canções que compõem como nos sorrisos e genuína gratidão que estampa o rosto dos integrantes do grupo enquanto desfilam seus maiores hits.

Um céu cheio de estrelas

 

Depois do pequeno show (pouco menos de meia hora de duração) da competente Tiê, e da surpreendente, carismática e dona de uma belíssima voz Liane La Havas (que saiu consagrada do Maracanã, botando o público em suas mãos sem dificuldade), o Coldplay subiu ao palco com sua tradicional pontualidade britânica, às 21:03h, ao som da inusitada ária “O mio bambino caro”.

Seria fácil dizer que a plateia estava ganha desde o primeiro acorde da guitarra de Jonny “Boy” Buckland, mas a verdade é que o Coldplay já entrou no palco com o jogo vencido antes disso: desde o começo da tarde a pista já mostrava animação e entoava alguns dos coros mais famosos do repertório da banda, principalmente o cativante refrão de Viva La Vida (e até gritos de “Vai, Safadão!”, porque não seria Rio de Janeiro sem bom humor).

Houve espaço até para uma bela homenagem ao mito David Bowie

Ainda assim, no instante em que as pulseiras Xyloband (cedidas a cada pagante na entrada do estádio) se acenderam, o êxtase do público chegou a níveis estratosféricos. Chris Martin, Will Champion, Guy Berryman e Jonny Buckland foram recebidos por um festival de cores e gritos enquanto tocavam A Head Full Of Dreams, música que abre o álbum homônimo, o trabalho mais recente da banda.

Setlist dos sonhos

 

A adrenalina continuou na maior intensidade possível durante o desfile de hits Yellow (o primeiro grande sucesso da banda), Every Teardrop Is A Waterfall (carro chefe de Mylo Xyloto) e The Scientist, uma música muito pedida e querida pelos fãs brasileiros, que não decepcionaram e fizeram um coro assombrosamente alto, para o deleite de Chris Martin, que parecia maravilhado com o calor do público.

O ecletismo mostrado no começo do show foi espalhado pelo setlist inteiro, que se empenhou em contemplar toda a discografia da banda. Apesar do show naturalmente se preocupar mais com o disco mais recente, não faltaram motivos para os fãs das antigas celebrarem.

Aquele momento em que o jornalista desiste de filmar pra cantar e pular

Um anexo do palco estrategicamente colocado no centro do estádio foi utilizado pela banda para executar canções mais discretas, como Parachutes (presença raríssima nos shows da banda desde… bom, sempre) e Shiver, outra queridinha dos brasileiros que, ignorando o clima acústico e sereno, entoaram seus versos a plenos pulmões. Everglow, Magic, A Message e Princess of China fecharam o arco intimista do espetáculo.

Luzes irão te guiar para casa

 

Foi nos momentos mais pop e rock, já no palco principal, que o Coldplay justificou o alto preço cobrado pelos ingressos: um verdadeiro show de luzes, bolas, balões, cores e jatos de papel picado transformaram a noite em um carnaval fora de época para os cariocas.

Hits como A Sky Full os Stars, Clocks e Adventure of a Lifetime fazem ótimo uso destes elementos, aumentando consideravelmente o impacto das canções. Esta última, inclusive, é possivelmente a música mais empolgante da carreira do Coldplay, com direito à Chris Martin regendo os pulos da plateia em uma dancinha sincronizada.

O show se concentrou em músicas do álbum mais recente, como Birds

O show quase foi manchado no fim quando um rapaz achou que seria uma boa ideia invadir o palco e beijar a testa de Chris Martin, driblando a ineficiente segurança carioca. Felizmente, toda a educação que faltou ao infeliz sobrou ao vocalista, que, como bom gentleman inglês, tirou a questão de letra, brincou com a situação e encerrou o show tranquilamente: com alegria, juras de amor e promessas de retorno em breve ao país.

Nesta nova turnê, o maior trunfo do Coldplay, muito mais do que a (linda) pirotecnia, foi fazer o que parecia impossível: migrar do rock alternativo para o pop com naturalidade, falando sobre tristeza e a mais pura alegria com a mesma sinceridade. Coisa de gente madura que sabe que, no fim do dia, melancolia e júbilo são dois lados de uma mesma moeda.

IMG_20160410_225439582

Por toda a noite, o público pôde olhar para as estrelas e ver o quão forte elas brilhavam para eles.

Related posts

Começou a edição 2016 da Brasil Mega Arena no Rio de Janeiro

Rodrigo Estevam

Segunda temporada de Jessica Jones é tediosa e descartável

Thomas Schulze

Escape 60 | Nova unidade é inaugurada na Barra da Tijuca, RJ

Rodrigo Estevam