A simbologia e a filosofia nas entrelinhas de Blade Runner 2049

Muitos irão estranhar por estar sendo publicado um texto sobre Blade Runner 2049 agora, depois de meses do lançamento do filme nos cinemas e até em blu-ray. Após assistir ao filme eu precisava fazer isso, expor a minha interpretação e tentar explicar ponto a ponto do filme a partir de uma leitura simbólica e filosófica da obra. E sim. O texto é enorme mesmo. E, é claro, é cheio de SPOILERS.


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O gênero cyberpunk surgiu por volta dos anos 1980, tendo como um dos seus percussores William Gibson, escritor da trilogia Neuromancer, Count Zero e Mona Lisa Overdrive. A ambientação cyberpunk pode ser descrita como o excesso de tecnologia cibernética, informações, um controle governamental atrelado a corporações com acesso a informações sobre qualquer pessoa, controle excessivo de seus cidadãos, degradação do estilo de vida da sociedade como um todo, possíveis faltas de recursos naturais e a abolição total de valores religiosos também podem ser explorados.

Blade Runner teve o seu lançamento em 1982, dirigido por Ridley Scott e estrelado por Harrison Ford. Baseado no romance Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? (Do Androids Dream of Electric Sheep?), de Philip K. Dick, e o filme tem o conceituado Syd Mead como um de seus principais concepts artists. A história de Blade Runner gira em torno dos replicantes, seres humanos artificiais que são criados para as mais diversas atividades. Após um motim, muitos replicantes são banidos da terra, sendo considerados perigosos, e passam a ser alvo dos “caçadores de replicantes”. A trama de Blade Runner 2049, o novo filme da série com direção de Denis Villeneuve, ocorre 30 anos após o primeiro filme.

O longa começa tendo K, um novo caçador de replicante, em caça de replicantes antigos, que se esconde ainda das grandes corporações. Vemos este replicante tendo uma vida simples e pacata vivendo como fazendeiro, onde cultiva proteínas (sim, proteínas). Vive em uma casa antiga, usando até um fogão para aquecer um café. É preciso notar que K quis resolver de forma pacífica sem brigas e armas, mas após uma troca de socos foi questionado sobre não respeitar os replicantes antigos, atacando seres de sua própria espécie. Aqui temos o ponto chave do encontro onde o replicante antigo diz a K que nunca viu um MILAGRE (que é a gestação de uma replicante no filme).

Um “milagre” se distingue de qualquer outro fenômeno pelo tipo de ligações que acontecem entre várias linhas causais e não pela presença da causa em si em particular. São nas sucessivas conexões acidentais que direcionam a um “grand finale” onde o milagre é em si observável. Não há método científico que permita conectar essas linhas e explicar o que seja um milagre e aqui há o primeiro choque do padrão de uma construção do gênero cyberpunk. Algo que está acima da lei da ciência e dos homens. Há um reconhecimento de um replicante em algo maior, e fora de qualquer âmbito religioso (o ponto não é esse!) ou científico que busque uma definição mas sim uma contemplação.

K também encontra um único tronco de uma árvore em meio de todo o ambiente, sem vegetação nenhuma e podre, sem condição nenhuma de vida. Uma representação da Árvore da vida na Cabala (talvez?). Ela serve tanto para explicar a criação do Universo como o processo evolutivo de um homem. Este último que acontece no decorrer do filme quando temos K em uma busca para entender sobre seu passado. Não tenho muito conhecimento do tema (praticamente zero), mas foi a primeira coisa q consegui associar.

K então retorna e é apresentado à agência onde presta os seus serviços de polícia. É passado por um processo de identificação, onde é perguntado sobre afeições e interações que pode ter tido durante a missão. A pergunta “qual a sensação de segurar a mão de quem você ama?”“interligado” e a repetição “células” seria referente a sua posição no trabalho onde cada ser, cada “célula” tem a sua função em todo o sistema, uma pequena peça da engrenagem para que tudo continue funcionando nos padrões pré-estabelecidos.

K então retorna a sua casa, vemos a vizinhança caótica mas a sua residência é um “outro mundo”, a interação com sua holograma, chamada Joi, é de uma interação ímpar, como um casal que se dão muito bem. Tudo, desde a demonstração de afeto por parte dela, as roupas de época como vestidos simples, remetem a um período que não se encontra na realidade mostrada no filme. K então lhe entrega um presente, uma atualização de seu sistema, desejando até um “feliz aniversário”, algo que um holograma não teria. Ela então ganhou o direito de ir para onde quer com a sua atualização. Sua “paixão” ao entrar em contato com a chuva, passa a ser admirada por K ao ver tamanha felicidade. A troca de carinho revela uma ligação muito grande entre os dois, até que Joi transmite uma mensagem de voz de seu trabalho, tirando toda a sua atenção de sua “paixão” e o fazendo voltar a realidade de sua função.

O que vemos aqui é a construção de um ambiente fora de suas reais funções. Algo construído pelo próprio personagem que busca momentos reconfortantes em sua vida, sendo criado e até programado esse afeto com sua holograma, Joi.

Ao ouvir a história pela tenente Joshi, sobre a replicante grávida na delegacia e que deve dar um sumiço na criança, K questiona sobre envolver crianças na missão. Joshi o elogia por estar se saindo bem nas missões ao não ter uma ALMA. Então relembra a conversa com o replicante que mencionou sobre K nunca ter visto um milagre.

A alma (Anima) é o princípio da vida de todo ser vivo. Segundo Aristóteles, a alma possui diversas qualidades como a capacidade de entender, de poder percepcionar com os sentidos, capacidade de apreender ou captar algo pelo pensamento, afeições e sentimentos, mas a primeira dela seria a de “movimentação”, ou seja, o direcionamento que damos a ela, tanto no campo físico quanto no mental.

Perceba que temos duas citações acima do campo da matéria, diria até metafísico, em uma obra cyberpunk logo no início do filme: MILAGRE e ALMA. Elementos que fogem de qualquer conceito aplicado ao gênero cyberpunk.

Chegamos à apresentação do personagem de Jared Leto, como Niander Wallace. Quando vemos um replicante, que estava em um casulo, acordar, é descrita a percepção do medo, de uma criatura nova, ainda sem memória. E, de novo, temos a menção ao “feliz aniversário”, remetendo a uma grande intimidade com a criatura criada.

Aqui temos seu criador. Niander Wallace se “comporta” como Deus se referindo aos seus anjos que se rebelaram. Ainda há a menção de nove mundos, uma analogia ao círculos do inferno e do paraíso descritos na Divina Comédia de Dante Alighieri. A raiva é notada por evidenciar que seus replicantes não possuem a capacidade de reprodução, remetendo ao desejo de controle perante suas criações ao saber da criança. O desejo de possuir o Eden, o ápice, o topo… o controle do paraíso.

Ao encontrar o cavalo que visualizava em memória na fábrica, K fica realmente na dúvida se seria um replicante ou um humano, se vivenciou realmente o acontecimento ou se a memória seria implantada. Ao conversar com Joi sobre suas dúvidas, ela coloca uma pergunta “quem faz as memórias?” Explicarei mais abaixo.

Chegamos a um dos momentos mais surpreendentes do filme. K então se encontra com a doutora Ana Stelline, uma garota que vive isolada em uma capsula. Ela tem, ainda, a incrível habilidade de criar qualquer coisa em sua capsula. Considerada a melhor autora de memória que existe, consegue se emocionar com suas próprias criações. K então pergunta o que a faz ser tão boa, o que faz as suas memórias serem tão autenticas. Stelline então responde que “toda obra tem um pouco de seu artista.” Ela continua contando que foi trancafiada aos oito anos, então sua imaginação remete às lembranças dessa época. Por isso o seu trabalho é dar boas lembranças aos novos replicantes criados.

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Ela descreve suas memórias como “autênticas”, e completa dizendo que “se você possui memórias autenticas, você tem reações humanas verdadeiras!”

Memórias não se resumem a dados descritivos. Percepções sensoriais que tivemos fazem parte da nossa lembrança. Pessoas especiais que tivemos ao nosso lado, aquela lembrança da visita na casa da avó quando pequeno, um lugar que não lembramos onde é mas que só de tentar lembrar é como se estivéssemos lá agora…. Tudo isso trazemos a tona quando queremos. A personagem está presente nessas sensações que enriqueceram o seu imaginário até os oito anos de idade e ela simplesmente traz à tona. Esse conhecimento e domínio das suas percepções se entrelaçam com o seu ser neste momento.

K então pergunta como saber se as memórias são reais.“Todos pensam que é uma questão de detalhes, mas não é assim que a memória funciona. Nos lembramos dos sentimentos,” é a resposta que recebe.

Aristóteles nos diz que aquilo que não conseguimos imaginar, não podemos compreender. Todo conhecimento humano começa primeiro na percepção, depois como memória e em seguida como imaginação.

O uso organizado da memória, o acúmulo visual que temos ao longo do tempo, enriquece nossa memória para termos uma imaginação mais criativa. Memória não é depósito, mas sintonia com o sentimento que nos foi causado em determinado momento. A psicopatologia começa como uma espécie de “desimaginação”, uma perda da capacidade imaginativa. Todos os estados mórbidos da mente vem com a diminuição da imaginação. A doutora Stelline consegue realizar tais obras pela memória afetiva que adquiriu até os 8 anos. Há verdade e sinceridade no que é criado pois são essas experiencias que formaram quem ela é.

Após retornar à delegacia, K é passado pela mesma vistoria no início do filme e ele transmite suas emoções, está envolvido demais com a história da criança, que acha ser realmente ele.

Após retornar para casa, Joi convida a garota de programa para dormir com K. Ocorre um entrelaçamento da garota com a holograma para que ela possa se envolver com o replicante. No fim, a garota de programa diz a Joi que esteve “dentro de você, você não isso tudo que pensa.” Isso remete a toda potencialidade de função que a holograma poderia ter, porém ela não vê necessidade, nem ela nem o próprio K… Há um contentamento entre os dois onde o suficiente já é mais do que necessário. Os dois possuem admiração um pelo outro e isso é o que importa entre eles.

Joi também reconhece o risco que corre por ter feito isso, já que basta que baixem todas as suas atividades e verão que tipo de envolvimento foi construído ao lado de K.

K após sair da cidade e ir de encontro a Deckard, encontra pequenos insetos e abelhas, percebendo a diferença de seres criados em laboratório. Após a briga entre os dois, K até pergunta se o cachorro é de verdade. Começa, aqui, a mudança de sair de um mundo lúdico, criado e controlado pelo homem, e o contato direto com a realidade e a busca do que possa ser.

Após a destruição de Joi e levada pelos outros replicantes, K conhece outros replicantes e reencontra a garota com a qual ele havia dormido. Temos a líder do grupo convocando-o para participar da rebelião. O que temos aqui é o chamado para pertencer a uma causa, uma motivação para lutar por um grupo que pretende se rebelar como a antiga rebelião dos replicantes.

É preciso notar que K precisava perder o que valorizava, sua “paixão”, ver o seu possível sonho de suas lembranças serem verdadeiras, o “seu mundo desmoronar”. É preciso perder a sua individualidade, o que valorizava para, a partir daqui, lutar por uma causa. Trata-se da perda de sua vida privada para pertencer a um coletivismo. “Morrer pela causa certa é a coisa mais humana que podemos fazer,” afirma uma das replicantes que tentam convocá-lo.

Deckard, ao reencontrar com uma replicante idêntica ao seu grande amor, Rachel (personagem do filme anterior), comenta sabe “o que é real.” Deckard sabe que o real é o que ele vivenciou ao lado dela, sabendo que sua aparência é somente uma casca. Niander Wallace ao dizer para Deckard que ela era “um anjo que foi refeito pra você” está, de novo, se comparando a um Deus.

Após dizer que a replicante tinha olhos verdes, sabendo que aquela realmente não era “sua Rachel”, Luv simplesmente a mata como um produto qualquer, descartável.

Isso mostra o quanto os replicantes, mesmo sendo chamados de “anjos”, não representam nada para Wallace, resumindo somente a suas funções para as quais foram programados. Se não entra nos requisitos do grupo, é eliminado.

Voltamos logo em seguida para K na mesma situação, encontrando sua holograma Joi como um anuncio de um banner neon em um prédio, dizendo que pode fazer de tudo e satisfazer os seus desejos. K sente somente um vazio por reconhecer que ali não está mais a sua holograma, a qual ele sempre valorizou ao seu lado. A Joi representada no anúncio, aquela dizendo que pode ser quem você quiser, nunca será a mesma que partiu. É uma situação semelhante à vivenciada por Deckard. K pode simplesmente ter uma outra versão de Joi, mas nega essa possibilidade. Afinal, aquela nunca será a “verdadeira” Joi para ele.

Mesmo com o acúmulo de informações, de compras, desejos que possam ser atendidos de diversas maneiras e por aí vai, tanto K quanto Deckard negam esta vida imposta como satisfação, buscando viverem reclusos dentro do que construíram ate hoje — e que em um determinado ponto foi destruído. Há um apego àquilo que  os “transformaram” em pessoas! Uma valorização do que fizeram ser quem são e isso não pode ser posto a venda e comprado.

O confronto do final do filme entre K e Luv ocorre no Mar. Muitos estranharam esse terceiro ato do filme, mas não vejo problema nele como um todo. Creio que a ideia aqui possa ter de colocar um ambiente onde não se tem um controle, um domínio do homem, e o mar sendo a unica força da natureza. Viagens pela água estão associadas a transformação e nascimento, o segundo nascimento e a limpeza. Porém, deixo em aberto uma conclusão sobre a mensagem neste confronto, caso eu veja alguma outra interpretação sobre isso posso voltar com mais análises.

Enfim, creio que acabei a minha interpretação desta obra que coloco entre os melhores filmes de 2017. O longa realmente é surpreendente e rico de informações. Não vou me ater a easter eggs. O que me contagiou nesta obra foi que, com tantas informações, o filme transparece que há muito mais do que é dito na tela.

Assim como o filme original, Blade Runner 2049 é uma obra à frente de seu tempo. Creio eu, o filme só receberá o devido valor daqui a alguns anos, assim como o longa estrelado por Harrison Ford.

Luiz Felipe Piorotti

Formado em Design Gráfico, é ilustrador, viciado em anos 80 e ainda está em busca de seu lugar no mundo. Não foge de uma boa partida de sueca e de um belo pote de canjica. Fica sempre com o pé atrás de quem defende sofistas e o hedonismo. Acredita que o mundo realmente se tornou cyberpunk mas esqueceram a beleza do synthwave.

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