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Cinema Críticas

A Forma da Água é um conto de fadas belo e problemático

O novo filme de Guillermo del Toro, A Forma da Água foi o filme mais indicado ao Oscar 2018, e também um dos mais aclamados durante a temporada de premiações, consagrando o diretor e sua obra no Globo de Ouro 2018. Tecnicamente, não há dúvidas de que todos os elogios são mais do que merecidos.


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Del Toro demonstra uma enorme maturidade e controle sobre a câmera, invocando imagens fortes e belíssimas, daquelas que grudam na sua cabeça e por lá permanecem por meses ou anos a fio. Embora não deixe de ser um filme de monstro, daqueles que o diretor tanto adora (a inspiração em O Monstro da Lagoa Negra é evidente), a melhor forma de definir o longa é como um conto de fadas bem erótico e violento.

Isso cria um contraste interessante, embora talvez ele não encaixe redondo com alguns paladares. O choque entre a inocência que norteia a mensagem do filme e as pesadas cenas a que são submetidos os diversos personagens é intencional e realmente consegue causar diferentes efeitos, nem sempre com o êxito desejado.

A protagonista é Eliza, uma mulher muda interpretada por Sally Hawkins. Embora sua atuação realmente seja muito competente, havia tanto potencial e profundidade na heroína que senti que ela poderia ter brilhado um pouco mais. Sempre que ela dividia a cena com alguém, me parecia que o outro ator ou atriz conseguia roubar os holofotes.

Crítica A Forma da Água, de Guillermo del Toro
Crítica A Forma da Água, de Guillermo del Toro

Argumentaria que isso é um pouco de demérito da Sally, mas a verdade é que é ainda mais mérito da incrível performance dos coadjuvantes, especialmente do vilão Michael Shannon (Richard Strickland), um cientista cruel e durão que capturou o monstro marinho e o maltrata bem no laboratório onde Eliza trabalha como faxineira ao lado de sua amiga Zelda, magistralmente interpretada por Octavia Spencer, que nunca falha em transmitir as mais variadas emoções com uma simples “careta”.

A turma dos mocinhos ainda envolve o vizinho de Eliza, Giles (Richard Jenkins, outro poço de carisma vivendo um personagem totalmente fofo e adorável) e o Dr. Robert Hoffstetler (do também ótimo Michael Stuhlbarg), um cientista soviético que trabalha como agente duplo, mas que tem bom coração e realmente quer ajudar a criatura capturada. Todos os coadjuvantes poderiam facilmente ter sido indicados ao Oscar sem qualquer injustiça.

Crítica A Forma da Água, de Guillermo del Toro
Crítica A Forma da Água, de Guillermo del Toro

É uma pena, então, que o roteiro de A Forma da Água seja infestado de clichês e soluções um pouco preguiçosas e/ou excessivamente previsíveis. Situações convenientes acontecem o tempo inteiro, e não faltam soluções deus ex machina para os problemas mais complexos, especialmente no ato final, quando os personagens precisam ir todos para o mesmo local para o confronto derradeiro.

Não há nada errado em ser piegas, mas, ao menos na minha visão, Del Toro pesou demais a mão e, com isso,  as cenas que poderiam ter algum impacto emocional foram quase que totalmente anuladas. Consegui sim me importar o suficiente com a criatura, que foi belamente animada e possui um design convincente e cativante, mas o romance entre ela e Sally bateu em tantas notas familiares e clichê que nem mesmo seu clímax emocional me arrancou alguma reação mais intensa.

Melhor sorte teve a belíssima trilha sonora de Alexandre Desplat, que alterna temas delicados com melodias marcantes, sempre criando a atmosfera perfeita para as cenas. Ela ajuda ainda mais A Forma Da Água a se consagrar como um filme tecnicamente maravilhoso. Só lamento que lhe falte alguma substância, e que seu roteiro seja tão raso.

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